Brasília (DF) – O cenário das eleições de 2026 trouxe à tona uma face obscura da disputa pelo poder: a recorrência de ameaças de morte e violência sexual contra candidatas. O caso da deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG), que denunciou ataques graves na última quinta-feira (8), ilustra a gravidade de uma dinâmica que tem feito do corpo feminino o principal alvo de intimidação no ambiente eleitoral brasileiro.
Um balanço compreendendo os 50 dias de campanha até o primeiro turno, encerrado no último domingo (4), contabilizou 134 episódios de violência política. A frequência é alarmante: uma ocorrência a cada nove horas. O dado que mais chama a atenção, contudo, é a incidência de gênero. Mesmo ocupando apenas cerca de um terço das candidaturas, as mulheres foram vítimas em 58,8% dos episódios dirigidos especificamente a candidatos e em 52,2% do total geral de casos mapeados.
A hostilidade não se restringe ao ambiente virtual, embora este funcione como um propagador constante de agressões. A maioria das ocorrências — 71 episódios — aconteceu nas ruas. O levantamento, que compara o atual cenário com o primeiro turno de 2022, aponta um crescimento real nas cifras. A violência política atual é cinco vezes mais frequente do que fora do período de campanha.
A natureza dos ataques revela um padrão discriminatório estrutural. Dos 70 episódios envolvendo mulheres, 45 tiveram o machismo ou a misoginia como eixos centrais, além de registros expressivos de racismo e transfobia. Enquanto homens compuseram a maioria das vítimas em episódios de agressão física, atentados e assassinatos, as mulheres foram as únicas vítimas das sete ameaças de violência sexual registradas. O racismo também é um marcador relevante: pessoas negras representaram quase 45% do total de alvos.
O silêncio do sistema de justiça reforça a sensação de impunidade. Até o fechamento do monitoramento, nenhum dos 134 casos resultou em punição efetiva dos autores. Medidas pontuais, como a remoção de conteúdos digitais ou o deferimento de protetivas, interrompem momentaneamente o ciclo de violência, mas não responsabilizam quem comete o crime. O impacto é claro: o medo desencoraja denúncias, gerando uma subnotificação que esconde a real dimensão da crise.
A complexidade do problema é ampliada pelo perfil dos agressores. Em 26 situações, o autor identificado era um agente público, incluindo parlamentares e integrantes de forças de segurança. A falta de regulação das redes sociais e a ausência de uma resposta firme do Estado criam um ambiente permissivo. Sem uma postura pedagógica e rápida das autoridades, essa crescente hostilidade não apenas desqualifica candidaturas, mas impõe rupturas profundas no funcionamento da própria democracia.
O Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul concentram as maiores taxas de ocorrência. Enquanto a sociedade debate propostas, o cotidiano das candidatas tem sido marcado por um sistema que, sob o pretexto de disputa política, utiliza o atentado e a injúria como ferramentas para moldar o resultado das urnas.
