Brasília (DF) – O cenário político brasileiro foi impactado pela decisão do plenário do Senado na noite desta quarta-feira (14), que chancelou o encerramento da escala 6×1. Com uma votação expressiva de 75 votos favoráveis contra apenas um contrário, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) consolidou uma mudança que altera o cotidiano de milhões de brasileiros ao estabelecer o descanso remunerado obrigatório de dois dias por semana.
Para a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a medida é o desfecho de uma trajetória de esforço da classe trabalhadora. A entidade classificou o fim da jornada como a superação de um modelo que, na sua visão, exauria as forças da força laboral do país. No mesmo tom, Miguel Torres, presidente da Força Sindical, argumentou que a alteração permitirá que o trabalhador disponha de mais tempo para lazer, educação e convivência familiar, citando inclusive experiências globais que vinculam a jornada reduzida ao aumento da produtividade.
O setor empresarial, contudo, reagiu com preocupação. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) não hesitou em classificar a mudança como um retrocesso. O presidente da organização, Ricardo Alban, manifestou receio com o impacto direto na competitividade nacional e na pressão inflacionária. Segundo cálculos da CNI, a transição para o novo regime pode elevar os custos produtivos em patamares que chegam a R$ 267 bilhões, com uma projeção de queda de 0,7% no Produto Interno Bruto (PIB) e uma inflação acumulada de 6,2%.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) questionou a celeridade com que o tema avançou no Legislativo, lamentando que uma discussão desta natureza tenha ocorrido em um momento eleitoral. A entidade defende que alterações estruturais exigem um debate técnico mais aprofundado sobre a sustentabilidade das empresas e os reflexos imediatos no mercado de trabalho.
A divergência de dados também marca o debate. Enquanto o setor patronal projeta cenários pessimistas, estudos do Ipea indicam que o custo adicional para as empresas deve variar entre 1% e 6,6%, dependendo do setor econômico — com o impacto mais sensível sendo observado nas áreas de vigilância e segurança.
A reviravolta política foi um capítulo à parte. Parlamentares da oposição, inicialmente reticentes, alteraram sua postura após a decisão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de pautar o tema. Em paralelo, o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) já projeta desdobramentos futuros, sugerindo que uma eventual nova pauta, batizada de PEC 12/2026, poderia introduzir um regime de contratação por hora trabalhada.
O texto aprovado define um cronograma de transição de 14 meses. A partir de 60 dias após a promulgação da emenda, o mercado deverá migrar para a escala 5×2, com a jornada caindo para 42 horas semanais. O patamar final de 40 horas será atingido após um ciclo adicional de 12 meses, garantindo a manutenção integral dos salários.
