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Mundo

Calor extremo na Europa expõe despreparo urbano e coloca saúde de idosos e turistas em risco

Última atualização: 30 de Junho, 2026 18:40
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
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Edifícios projetados historicamente para reter o calor do inverno transformaram-se em armadilhas térmicas em junho de 2026. Uma massa de ar quente estagnada sobre a Europa Ocidental empurrou os termômetros para marcas inéditas, expondo a fragilidade de um continente que cresceu ignorando o avanço rápido das mudanças climáticas. Territórios no norte da Espanha, na França, em todo o Reino Unido, na Alemanha, na Polônia e na Dinamarca, além de Lituânia, Letônia e Suécia registraram marcas atípicas, com temperaturas mais de dois graus acima da média por pelo menos três dias consecutivos.

A explicação física para o sufoco que atingiu as principais capitais europeias atende pelo nome de Bloqueio Ômega. Trata-se de um sistema de alta pressão que estacionou sobre a região, criando uma verdadeira cúpula de calor. Vasco Mantas, especialista em ciências da Terra da Universidade de Coimbra, esclarece que a tradicional corrente de jato, responsável por mover os sistemas meteorológicos de oeste para leste, teve seu fluxo alterado. Isolado, o bloqueio funcionou como uma bomba aspiradora, trazendo ar superaquecido do Norte da África sob um céu sem nuvens e com radiação solar intensa.

O fenômeno começou mais cedo e com força redobrada se comparado à histórica temporada de 2023. As temperaturas superaram as médias sazonais entre 5 °C e 12 °C, com a Europa aquecendo a um ritmo duas vezes superior à média global. Na pequena Palluau, na França, os termômetros cravaram impressionantes 43,8 °C.

Cidades de concreto e falta de sombra

O impacto nas áreas metropolitanas reacendeu debates que remontam à Eco-92. O geógrafo Paulo Nossa aponta que décadas de especulação imobiliária e expansão desordenada sufocaram as áreas verdes urbanas. A falta de parques e de zonas de sombreamento cobra agora o seu preço. Os sistemas de saúde locais operaram no limite devido à sobrecarga de atendimentos provocada pelo calor prolongado.

O perigo torna-se ainda mais crítico no período noturno, quando o corpo humano deveria se recuperar. Lincoln Alves, pesquisador e coordenador-geral de Integração Multinível e Análise de Risco do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, alerta que a permanência de noites quentes impede o repouso adequado do organismo. Crianças, idosos, pessoas em situação de rua e cidadãos com doenças cardiovasculares são as principais vítimas desse estresse térmico prolongado dentro de moradias que carecem de ventilação adequada.

Desafios no turismo e no mercado de trabalho

Em pleno período de alta temporada turística, o calor extremo ameaça o motor econômico de países do sul europeu, como Espanha e Grécia. Especialistas defendem uma reestruturação na recepção de visitantes, sugerindo a dispersão dos fluxos e a flexibilização dos horários de visitação para os períodos mais frescos do dia. Paralelamente, surge a urgência de reformular as leis trabalhistas para proteger quem atua ao ar livre, especialmente os trabalhadores migrantes do setor de serviços.

No cenário global, Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, adverte que a intensidade desses episódios continuará crescendo enquanto persistir a dependência de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. A transição para energias limpas e a adaptação imediata das infraestruturas deixaram de ser discussões teóricas para se tornarem medidas de sobrevivência diária.

MARCADOBloqueio Ômegacalor extremoeuropamudanças climáticasSaúde Pública
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