O ano de 2025 consolidou-se como o período mais letal para a infância em cenários de guerra desde que os dados começaram a ser sistematizados. Um levantamento minucioso revelou um salto sem precedentes nas violações graves contra crianças, marcando uma inversão de tendência: pela primeira vez, as forças oficiais dos Estados superaram milícias, facções e grupos insurgentes como os principais autores desses abusos.
O documento, apresentado pelo secretário-geral António Guterres, contabilizou 38 mil violações confirmadas ao longo do último ano. O impacto foi direto na vida de pelo menos 15 mil meninos e quase 8 mil meninas, cujas rotinas foram interrompidas pela violência sistêmica.
Cenários de crise
A situação em Israel e nos Territórios Palestinos Ocupados encabeça os números, totalizando 12 mil casos específicos. Em agosto, a declaração oficial de fome na Faixa de Gaza trouxe à tona uma realidade brutal. Ao menos 113 crianças perderam a vida em decorrência da desnutrição extrema, um número que se soma a um contingente ainda maior de óbitos causados pelo frio e por enfermidades que, em outras circunstâncias, seriam plenamente evitáveis.
A tecnologia, antes vista como uma promessa de precisão, transformou-se em uma ameaça direta. O uso recorrente de drones e sistemas de inteligência artificial para a seleção de alvos em áreas densamente povoadas retirou o discernimento humano das operações militares. O resultado foi um rastro de destruição que não poupou os mais novos, expondo uma vulnerabilidade tecnológica que as leis internacionais ainda lutam para enquadrar.
Recrutamento e violações sexuais
Além da letalidade direta nos combates, o recrutamento forçado de menores atingiu a marca de 6,5 mil casos. O cenário na Ucrânia exemplifica a instrumentalização desses jovens: forças russas foram identificadas utilizando crianças como informantes. A missão consistia em registrar imagens de infraestruturas estratégicas ou até mesmo participar de ataques incendiários, colocando-as na linha de frente do conflito.
Já no Sudão, onde a crise entra no seu terceiro ano, o conflito interno tomou contornos de extrema crueldade. As duas partes beligerantes intensificaram ataques a hospitais e escolas, além de um aumento documentado de casos de violência sexual, que atingem a população infantil de forma desproporcional.
A conclusão do relatório serve como um alerta para a fragilidade dos mecanismos atuais de salvaguarda. Há uma pressão internacional para que o uso de tecnologias letais permaneça estritamente sob comando humano. Paralelamente, o sistema de proteção infantil enfrenta uma crise financeira: a queda no aporte de doadores globais coloca em risco a continuidade de programas humanitários essenciais, em um momento em que a demanda por auxílio nunca foi tão urgente.
