Brasília (DF) – Um clima de indignação misturado à promessa de portas abertas marcou a reação do governo brasileiro nesta terça-feira (2) diante da proposta dos Estados Unidos de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos vindos do Brasil. A medida, decorrente de uma investigação comercial que começou no ano passado, foi prontamente rechaçada por Brasília, que, mesmo lamentando a “sabotagem” do diálogo por interesses particulares, prometeu manter as conversas para evitar a concretização da taxação.
A nota oficial divulgada pelo governo foi clara: não há qualquer justificativa para sanções contra o país ou para atingir o patrimônio nacional, a exemplo do sistema Pix. Em sua defesa, o Brasil apontou um histórico que pesa contra a iniciativa americana: nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superávit comercial de impressionantes US$ 424,5 bilhões. Para completar, 76% das importações originárias dos EUA entraram no Brasil sem qualquer imposto no ano passado.
Nesse cenário de tensão, o Brasil deixou uma carta na manga. A possibilidade de usar a Lei da Reciprocidade, caso as tarifas se tornem realidade, foi citada. Ainda assim, a expectativa é que a aplicação efetiva seja evitada, embora o governo já se prepare para adotar todas as medidas possíveis para minimizar os danos, o que, aliás, não é pouco. Por que, então, a persistência?
Na mesma toada da nota, o vice-presidente Geraldo Alckmin conversava com a imprensa e reiterou que o diálogo entre os dois países está firme. “Diálogo que já vinha ocorrendo”, enfatizou. Mas Alckmin foi além, criticando abertamente o que chamou de “falsos patriotas sabotadores” que colocam seus interesses pessoais e eleitorais acima dos do país. A referência parecia clara: um entrave nas negociações sempre surgia quando o avanço era iminente.
Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, adicionou um toque de concretude ao panorama, detalhando os impactos potenciais. Segundo ele, desde o encontro entre Lula e o ex-presidente Trump, quatro reuniões já foram realizadas, mostrando um esforço diplomático considerável. Se as tarifas forem implementadas, o ministro advertiu que setores como máquinas e equipamentos, plásticos, produtos de madeira — incluindo esquadrias —, papel, cartão, calçados, ferro fundido, peixes e crustáceos serão os mais atingidos. “Isso tem valor agregado e traz muito prejuízo para emprego, para renda, para as indústrias”, argumentou, mantendo a esperança de que a proposta não se converta em realidade.
E há, claro, um subtexto político que o governo brasileiro faz questão de trazer à luz. A nota fez questão de lembrar que a investigação comercial que deu origem à proposta de tarifa partiu de uma “provocação” da família Bolsonaro, no ano passado. Isso foi visto como uma clara tentativa de interferir em assuntos internos do Brasil, ecoando o que, para Brasília, também ocorreu na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington.
O senador, por sua vez, não demorou a se manifestar. Nesta mesma terça-feira, ele negou veementemente ter feito qualquer pedido para taxar empresas brasileiras. O cenário, portanto, permanece em um delicado equilíbrio: enquanto o Brasil busca desarmar uma nova guerra comercial, tem de lidar com a sombra de uma disputa política interna.
