Washington, Estados Unidos – O anúncio recente de um modelo de autorregulação para o desenvolvimento de Inteligência Artificial nos EUA, costurado entre o governo e as maiores corporações do setor, é encarado por acadêmicos como uma carta branca perigosa. Sob a ótica de Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), a medida transfere de forma temerária o controle sobre uma tecnologia transformadora diretamente para as mãos de quem lucra com sua expansão, ignorando a necessidade de supervisão estatal.
Para Amadeu, o compromisso carece de substância prática. Ele aponta que os mecanismos de segurança prometidos — como o monitoramento interno — já fazem parte do cotidiano da indústria, não trazendo garantias reais contra o uso indevido de aprendizado de máquina ou profundo. O ponto mais crítico, segundo o sociólogo, reside na auditoria externa prevista: como esperar isenção de profissionais pagos justamente por aqueles que precisam fiscalizar? O conflito de interesses é evidente, pois o crivo de um auditor dificilmente contrariará os conselhos de acionistas dessas companhias.
Fragilidade dos acordos voluntários
A dúvida sobre a sustentabilidade desse modelo também é compartilhada por Ettore Arpini, fundador da organização Plures. Ele traça um paralelo com a Moratória da Soja na Amazônia, um arranjo voluntário que perdurou por duas décadas, mas que sucumbiu quando o cenário econômico e político tornou o cumprimento das metas oneroso para os participantes. A lição é clara: o compromisso tende a ser descartado no momento em que as salvaguardas se tornam um entrave comercial. Fica a questão sobre o que restará se uma empresa for reprovada ou simplesmente decidir abandonar o pacto unilateralmente.
O debate não se limita a questões contratuais, abrangendo riscos palpáveis como o consumo exacerbado de energia e água, a vigilância em massa e a influência sobre a saúde pública. A parceria entre big techs e o setor farmacêutico, mediada por algoritmos, preocupa especialistas devido ao potencial de experimentos automatizados que podem incentivar a automedicação ou diagnósticos equivocados fora de um ambiente clínico regulado.
Pressão social e ameaças globais
Enquanto o governo de Donald Trump resiste a impor restrições, a percepção pública caminha em direção oposta. Uma pesquisa Ipsos e Reuters indicou que 73% dos americanos sentem que as empresas do ramo falham em mitigar danos, enquanto 39% já notam impactos negativos diretos da tecnologia. O medo social abarca desde o aumento de ataques cibernéticos e golpes até a precarização do mercado de trabalho.
A ameaça, porém, ultrapassa fronteiras. O Internacional IA Safety Report 2026, consolidado por uma rede de 100 especialistas globais, alerta para a capacidade da IA de manipular crenças e opiniões em redes sociais. Mais grave ainda é o risco securitário: o relatório aponta que sistemas de uso geral podem oferecer instruções técnicas para a criação de armas químicas e biológicas, fornecendo dados sobre patógenos e procedimentos laboratoriais que deveriam permanecer sob estrito controle de segurança.
