A poucas horas do pleito de 3 de novembro, que definirá se o Partido Republicano manterá o domínio no Congresso dos Estados Unidos, o clima nas ruas reflete um ceticismo profundo. O bolso dos eleitores fala mais alto do que os relatórios estatísticos. Encher o tanque do carro, pagar a conta de luz ou jantar fora tornaram-se tarefas visivelmente mais caras, alimentando a insatisfação com a condução econômica do presidente Donald Trump no início deste seu segundo mandato.
A contradição da economia americana é evidente. No papel, os números exibem vitalidade impressionante: o Produto Interno Bruto cresceu a uma taxa anualizada de 3,4% no último trimestre, o desemprego ficou em 4,2% em setembro — sem ultrapassar 4,5% nos últimos cinco anos — e os pedidos de auxílio-desemprego beiram as menores marcas em 57 anos. No entanto, o otimismo macroeconômico não se traduz na vida do cidadão comum.
Descompasso entre mercado e cotidiano
Grande parte da força recente veio dos investimentos em inteligência artificial, cujo aporte empresarial saltou 12,7% no período recente, alavancando os índices acionários. Esse avanço no mercado financeiro sustenta o consumo das famílias de maior renda. Contudo, balanços de gigantes como Amazon.com e Intel trouxeram apreensão sobre a sustentabilidade desse ciclo, provocando recuos acentuados no índice Nasdaq Composite.
Enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, defende que o comportamento de consumidores e empresas segue firme diante do ambiente regulatório, fiscal e energético, a percepção popular oscila desfavoravelmente. Desde janeiro de 2025, os preços ao consumidor e o rendimento médio por hora subiram ambos perto de 5,5%. O ganho real de poder de compra, portanto, estagnou.
Guerra e aperto monetário
Dois fatores centrais pesam sobre esse cenário. As tarifas comerciais impostas por Washington e o conflito armado de oito meses com o Irã, deflagrado após ações militares conjuntas de Estados Unidos e Israel, pressionaram as cotações internacionais de combustíveis e aceleraram a inflação global. Paralelamente, a forte demanda por infraestrutura tecnológica impulsiona os custos gerais.
Para conter o avanço dos preços acima da meta oficial de 2%, o Federal Reserve elevou a taxa básica de juros em setembro e sinalizou uma nova alta para dezembro. O chair do Fed, Kevin Warsh, classificou a medida como um “remédio monetário” necessário para reequilibrar o sistema sem provocar demissões em massa. Todavia, a alta nos custos dos empréstimos elevou as taxas de hipotecas de 30 anos acima dos 7%, tornando a casa própria um objetivo distante para grande parcela da população em meio à escassez de imóveis.
É com este quadro de incertezas e pressão financeira que os americanos chegam às urnas para julgar o rumo econômico do país.
