Washington, Estados Unidos – Uma decisão de forte impacto geopolítico tomada em Washington nesta quinta-feira (28) colocou as duas maiores facções criminosas do Brasil na mira direta da máquina de guerra norte-americana. A partir do dia 5 de junho, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) passam a figurar oficialmente na lista de organizações terroristas estrangeiras dos Estados Unidos. A medida se ampara na seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade e em uma ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump, mudando drasticamente o tratamento jurídico e militar dado a esses grupos.
O anúncio partiu do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Segundo o chefe da diplomacia de Washington, as facções brasileiras são estruturas de extrema violência que controlam dezenas de milhares de integrantes e coordenam investidas brutais que vitimam policiais, autoridades civis e a população em geral. Rubio também alertou que os tentáculos dessas redes criminosas ultrapassaram as fronteiras nacionais e se espalharam por diversos países das Américas, justificando uma resposta mais dura por parte da potência estrangeira.
Soberania nacional sob pressão
A diplomacia em Brasília já previa o desgaste e vinha se movimentando nos bastidores. Nos últimos meses, representantes brasileiros tentaram articular para demover Washington da ideia, temendo que a rotulagem de terroristas abra precedentes perigosos. O principal receio envolve o risco de intervenções militares diretas dos Estados Unidos no território nacional, além da possibilidade de aplicação de severas sanções financeiras e comerciais que poderiam paralisar setores importantes da economia do país.
Analistas de segurança internacional apontam que a iniciativa arranha a soberania brasileira e coloca em xeque a cooperação policial histórica entre as nações. Na prática, a classificação altera os protocolos de confidencialidade sobre dados compartilhados. O fluxo de informações de inteligência, antes descentralizado, tende a ser monopolizado pela CIA ou por órgãos de defesa do Pentágono, dificultando o trabalho direto das polícias locais que dependem de agilidade mútua nas investigações.
A guinada militar na América Latina
A ofensiva faz parte de um redesenho drástico na conduta de Donald Trump para a região neste seu novo mandato, centralizando ações militares contra o que Washington qualifica como narcoterrorismo. Os sinais dessa política de força já vinham se acumulando. Em episódios recentes, navios de guerra norte-americanos atacaram embarcações suspeitas em águas do Caribe, ignorando jurisdições locais sob o pretexto de combater a ameaça terrorista de forma preventiva.
O ápice dessa doutrina militarista ocorreu no início deste ano com a invasão da Venezuela, operação que culminou na queda e na prisão do líder venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. O fantasma de uma ação externa semelhante sobre solo brasileiro, embora pareça distante sob a ótica diplomática tradicional, ganha contornos de possibilidade real diante do novo enquadramento legal concedido ao PCC e ao CV.
Entre a diplomacia oficial e a articulação paralela
Ironicamente, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve recentemente na Casa Branca para debater segurança pública com Trump. No encontro, ocorrido no começo deste mês, os líderes concordaram em asfixiar os canais de financiamento internacional de cartéis transnacionais. No entanto, o petista revelou que a situação particular de organizações brasileiras específicas não chegou a entrar na pauta de discussões bilaterais na ocasião.
Como plano de fundo ao anúncio formal, pontes informais eram erguidas na capital americana. Na quarta-feira (27), o senador Flávio Bolsonaro, que desponta como pré-candidato presidencial, esteve reunido com o próprio Marco Rubio em Washington. Na terça-feira, o parlamentar e seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro — considerado foragido pela Justiça do país e atualmente residindo nos EUA —, haviam sido recebidos por Trump na própria Casa Branca. Ambos são filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
