Brasília (DF) – O exercício pleno da cidadania, que deveria ser um direito inalienável, transformou-se em um campo de batalha para milhares de brasileiras. Entre janeiro e agosto de 2026, o Ligue 180 — a Central de Atendimento à Mulher — computou 1.564 denúncias específicas de violência política. O número, que reflete o ambiente tenso de um ano de eleições gerais, soma 1.581 violações distintas, já que um único relato pode esconder múltiplas agressões perpetradas pelo mesmo autor.
Para Sandra Kennedy, secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Participação Política, o problema está longe de ser um fenômeno isolado. Ela enxerga esses dados como o desdobramento de uma estrutura patriarcal que, ao se ver desafiada, reage com misoginia exacerbada. O cenário preocupa ainda mais quando observa-se, em escala global, o crescimento de movimentos que tentam reescrever o papel da mulher, muitas vezes questionando o próprio direito ao voto individual em favor de teses retrógradas, como a do voto familiar — uma ironia histórica, dado que a conquista do sufrágio feminino no Brasil completou quase um século.
O perfil das vítimas é claro. A mira do agressor está voltada para quem ocupa cadeiras de poder: vereadoras, prefeitas, deputadas e senadoras. No entanto, a rede de alvos é vasta, estendendo-se a ativistas, defensoras de direitos humanos e lideranças de movimentos sociais. O recorte racial revela uma ferida ainda mais profunda: 53% das denúncias, ou 842 casos, referem-se a mulheres pretas e pardas. As mulheres brancas respondem por 590 registros, enquanto as demais ocorrências envolvem outros grupos étnicos.
Geograficamente, São Paulo lidera o ranking com 430 registros. O Rio de Janeiro aparece logo atrás, com 260, seguido por Minas Gerais, com 149. Bahia, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina completam a lista dos estados com maior volume de queixas formais.
A violência, contudo, ganha contornos cruéis e variados. Vai muito além da simples intimidação. As denúncias narram desde interrupções deliberadas de fala em plenários e questionamentos sobre a vida privada, até casos extremos de ameaças de morte, estupro e ataques racistas ou transfóbicos. O vandalismo de materiais de campanha carrega uma carga simbólica perturbadora: ao rasgar cartazes, o agressor frequentemente atinge os olhos ou o rosto da mulher, como se tentasse, pela via da destruição material, anular a figura pública e o próprio corpo feminino.
Embora o número total de denúncias entre janeiro e agosto deste ano — 1.564 — seja inferior aos 1.649 registrados no mesmo período de 2025, essa variação não deve ser lida como um alívio. Existe, segundo o próprio Ministério das Mulheres, um horizonte vasto de subnotificação. Muitas vezes, a barreira do desconhecimento sobre o canal de denúncia ou o medo das represálias mantém o problema oculto.
No Poder Judiciário, o sinal de alerta soou alto. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) identificou um salto expressivo nos processos sobre o tema: foram 177 casos este ano, contra apenas 15 registrados em 2022. Desse total, 26 incidentes estão diretamente ligados ao processo eleitoral vigente. Essa escalada confirma o que casos notórios de domínio público já demonstravam, como o assassinato de Marielle Franco, o episódio de importunação sexual sofrido por Isa Penna na Assembleia Legislativa de São Paulo, ou as hostilidades direcionadas às deputadas Maria do Rosário e Talíria Petrone.
Para enfrentar essa realidade, o Protocolo de Enfrentamento à Violência Política Contra as Mulheres busca agora integrar as esferas da Justiça e da rede de proteção. O objetivo é garantir que o acolhimento não seja apenas uma formalidade, mas um caminho seguro para que a mulher possa manter sua atuação política sem o peso da intimidação. Em situações críticas, a recomendação permanece a mesma: acionar o 190 ou buscar suporte especializado pelo 180, pelo WhatsApp (61) 9610-0180 ou pelos canais institucionais do Ministério Público e das Ouvidorias especializadas.
