Brasília (DF) – Cinquenta mandados de busca e apreensão foram cumpridos nesta sexta-feira, dia 19, durante uma ação coordenada que expôs uma engrenagem de desvios operando diretamente sobre a folha de pagamento do funcionalismo público distrital. O Banco de Brasília (BRB), a BRB Serviços, a Secretaria de Economia e o PicPay aparecem como alvos principais, ao lado de diversas associações sob suspeita. O esquema, batizado de Operação Juros Zero, transformou o que deveria ser um simples trâmite financeiro em uma fonte de lucros ilícitos, utilizando taxas disfarçadas e fiscalização negligente para manter a operação em curso.
O volume de recursos desviados é expressivo. A estimativa das autoridades é que, entre agosto de 2024 e agosto de 2025, cerca de R$ 80 milhões tenham sido retirados indevidamente dos contracheques dos servidores sob a rubrica genérica de taxas. A manobra ia além: o uso de códigos destinados a planos de saúde servia para mascarar operações de crédito com juros abusivos. Muitos servidores, inclusive aposentados, viram seus vencimentos encolherem sem que houvesse qualquer autorização formal para tais cobranças. Em alguns casos, a fraude chegou a incluir a captação de senhas e tokens de acesso pessoal para viabilizar a entrada dos descontos no sistema.
A teia de responsabilidades alcança nomes que ocuparam postos-chave na gestão pública. Ney Ferraz, ex-secretário de Estado de Economia e ex-presidente do Instituto de Previdência do Distrito Federal, está no foco das apurações. Outro nome central citado é Paulo Henrique Bezerra, que presidiu o BRB entre 2019 e 2025 e já cumpre pena de prisão desde abril deste ano.
A complexidade do caso exigiu uma frente interestadual de combate ao crime. O Ministério Público trabalhou em parceria com as polícias civis do Distrito Federal e de São Paulo, além de receber suporte das unidades do Ministério Público em São Paulo, Paraná e Minas Gerais. A lista de possíveis crimes é extensa e abrange desde usurpação e publicidade enganosa até a inserção e alteração de dados em sistemas da Administração Pública.
Os investigadores agora tentam desenrolar a rede de lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e formação de organização criminosa que sustentava o negócio. Enquanto os mandados eram executados em diversos pontos, o que resta é o impacto direto sobre a renda de milhares de trabalhadores que, durante o último ano, tiveram seus salários reduzidos por uma engrenagem que, por dentro, parecia oficial, mas que, na prática, operava à margem da lei.
