Cerca de 70 milhões de brasileiros, o equivalente a quatro em cada dez habitantes do país, vivem em áreas sob influência de facções criminosas ou milícias. O levantamento, realizado pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ouviu duas mil pessoas com 16 anos ou mais em 137 municípios de todas as regiões brasileiras.
Impacto na rotina e sensação de medo
O índice de percepção sobre a presença de grupos criminosos atinge 41% da população nacional, mas o cenário é mais crítico nas capitais, onde o número sobe para 55%. Essa realidade impõe um poder paralelo que altera o cotidiano dos moradores, forçando mudanças de hábitos como evitar sair à noite, mudar trajetos habituais e sair de casa sem o aparelho celular.
O temor de ser atingido por balas perdidas durante tiroteios aparece como a maior preocupação de quem reside nessas áreas. Além disso, os moradores relatam receio de represálias caso denunciem atividades ilícitas e o medo constante de que familiares sejam cooptados pelo tráfico de drogas.
Vulnerabilidade e segurança pública
Juliana Brandão, coordenadora temática do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, avalia que esse sentimento de desproteção é um reflexo da expectativa dos cidadãos por respeito e segurança. Para ela, o medo deve ser um fator determinante na formulação de políticas públicas e nas próximas decisões eleitorais, sobrepondo-se muitas vezes a argumentos puramente técnicos.
O estudo também aponta que 40% dos entrevistados já foram vítimas de crimes ou violência. Entre os relatos, os golpes virtuais aparecem como a ocorrência mais frequente, seguidos por casos de homicídios envolvendo conhecidos ou familiares. Em regiões onde a presença do crime organizado é mais forte, a taxa de vitimização salta para 51%.
Diferenças na percepção da violência
As mulheres demonstram níveis mais elevados de medo em praticamente todas as situações analisadas, com destaque para a preocupação com a violência doméstica e sexual. Os dados derrubam a tese de que organizações criminosas garantiriam a ordem nas comunidades onde atuam, revelando, na verdade, um ambiente de insegurança generalizada que limita a liberdade dos cidadãos.
