São Bernardo do Campo (SP) – O calendário eleitoral enfim permitiu, e o domingo foi de ruas tomadas pela política em todo o território nacional. A partir deste dia 16, os postulantes à Presidência da República deram o pontapé inicial em suas campanhas, inaugurando um ciclo de atos públicos que, conforme as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estende-se até a véspera do primeiro turno, em 3 de outubro. Para os comícios, a regra é clara: o barulho está autorizado das 8h até a meia-noite.
Luiz Inácio Lula da Silva escolheu o solo simbólico do Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para marcar o início de sua busca pelo quarto mandato. O local, berço histórico das greves metalúrgicas do ABC, serviu de cenário para um discurso focado na memória da militância e na promessa de combate rigoroso à gestão do atual campo adversário. Durante o evento, Lula convocou seus seguidores a uma jornada intensiva e adiantou pilares de sua plataforma, como a defesa da soberania nacional, o fortalecimento de redes de proteção social e a reestruturação da segurança pública — incluindo a promessa de um ministério dedicado à área e o foco no desmonte financeiro de organizações criminosas.
A quilômetros dali, na areia de Copacabana, o cenário era outro. Flávio Bolsonaro (PL) reuniu milhares de apoiadores na orla carioca para lançar sua candidatura ao lado de Alfredo Gaspar. Sob uma camiseta que estampava o lema “Meu Partido é o Brasil”, o senador aproveitou a vitrine de um dos locais de maior trânsito de manifestantes conservadores no Rio de Janeiro para exaltar o legado de seu pai. Em um discurso focado no que chamou de “justiça” em relação à prisão de Jair Bolsonaro, o candidato apresentou propostas de choque: o endurecimento das penas, com a redução da maioridade penal, e o tratamento de milícias e cartéis de drogas como grupos terroristas. A economia também entrou na pauta, com promessas de corte severo de gastos públicos e críticas diretas à taxa Selic de 14% ao ano.
Já no interior do país, a estratégia foi a proximidade geográfica. Ronaldo Caiado (PSD) concentrou seus primeiros movimentos no Entorno do Distrito Federal. Ao percorrer cidades goianas, o ex-governador reiterou seu distanciamento de qualquer alinhamento com o PT. Em um contraponto direto às falas de Gilberto Kassab, presidente de seu partido, Caiado assegurou que, em um eventual segundo turno, não haverá apoio a Lula. O candidato ainda aproveitou a oportunidade para alfinetar seus adversários de direita, questionando a viabilidade de candidaturas que, segundo ele, carregam o ônus de problemas judiciais não resolvidos.
Em Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) dividiu seu domingo entre a religiosidade e o pragmatismo político. Após assistir a uma missa em Montes Claros, ele defendeu a competência na gestão pública como antídoto à corrupção, prometendo estender ao governo federal o modelo que adotou durante sua administração estadual. No mesmo estado, Augusto Cury (Avante) focou seu discurso em Santa Luzia, utilizando uma retórica voltada à união familiar e à escuta ativa, propondo que a política seja gerida com uma sensibilidade mais voltada ao bem-estar do que ao embate ideológico.
O espectro ideológico se completou com as agendas de Renan Santos (Missão) e Hertz Dias (PSTU). Em São Paulo, Santos aproveitou o Largo São Francisco para discursar sobre empreendedorismo e a necessidade de uma mudança geracional na condução do país. Já o socialista Hertz Dias utilizou a Avenida Paulista e as ruas de São José dos Campos para ecoar uma pauta de ruptura, defendendo a reestatização de setores estratégicos e o fim do que descreveu como a exploração da riqueza nacional por uma minoria financeira, posicionando sua campanha como a voz direta dos trabalhadores neste pleito.
