Na última sexta-feira (25), o anúncio de que as operações das apostas on-line seriam proibidas no país chegou como um suspiro de alívio para Kaio, de 42 anos. O que antes era uma rotina de perdas progressivas transformou-se em uma tentativa de reconstrução. Hoje, ele vive solitário em um dormitório no interior de Goiás, dormindo no chão e evitando a própria família por medo das retaliações de agiotas, aos quais recorreu quando a casa, o carro e o emprego já haviam sido consumidos pelo vício. Durante os últimos seis anos, sua vida foi desmantelada peça por peça.
Para tentar retomar as rédeas da própria consciência, Kaio busca apoio em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Sua rotina agora envolve sessões de terapia de grupo e o uso rigoroso de três medicamentos diários. Ele é apenas um dos milhares de brasileiros cujas trajetórias foram alteradas pela onipresença das bets. A decisão que encerra esse capítulo revoga dispositivos da Lei 13.756, de dezembro de 2018, consolidada nos dias finais do governo de Michel Temer, mas que deixou o mercado operando em uma terra sem lei por pelo menos cinco anos — a regulamentação efetiva só veio em dezembro de 2023.
A psiquiatra Katia Branco, que supervisiona o Grupo Pro-Amiti no Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que a publicidade agressiva focou justamente nos elos mais frágeis da sociedade. Sob a promessa ilusória de uma renda extra, as plataformas foram apresentadas como soluções financeiras, mascarando um risco devastador. Os números comprovam o rastro de destruição: em um intervalo recente, as famílias brasileiras amargaram um prejuízo de R$ 62,5 bilhões — valor que representa a diferença entre o que foi apostado e o que retornou aos jogadores. Segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as transações via Pix movimentaram impressionantes R$ 351 bilhões no mesmo período.
O advogado Júlio Leone ressalta que as proteções previstas na legislação tardia raramente foram postas em prática. Embora houvesse a exigência de bloquear jogadores compulsivos, o que se viu foi a estratégia contrária: um fluxo constante de bônus e notificações estimulando novos aportes. O celular, descreve Kaio, tornou-se uma fonte ininterrupta de pressão.
O impacto atravessa gerações, alcançando até as salas de aula. Um levantamento que ouviu 1.912 estudantes em todo o país revelou que um em cada cinco alunos do ensino fundamental e médio já se aventurou nas apostas. Em alguns casos, a iniciação ocorre precocemente, por volta dos 11 anos. A psicóloga Mariana Kehl alerta que, nessa fase, o cérebro humano está biologicamente desprovido das defesas necessárias contra a recompensa dopaminérgica. O impulso de vencer sobrepõe-se à capacidade de avaliar o perigo real.
O desfecho desse cenário, muitas vezes, é trágico. Profissionais de saúde têm lidado com pacientes que apresentam ideação suicida, um reflexo do desespero financeiro e da sensação de isolamento. Como explica o neurocirurgião Orlando Maia, a aposta, que antes exigia o deslocamento até um cassino, tornou-se um jogo de bolso, acessível a qualquer hora. O SUS já havia detectado a urgência do problema, ampliando o teleatendimento desde agosto. Agora, com a proibição, o Ministério da Saúde sinaliza que adotará estratégias de busca ativa para localizar apostadores em situação de vulnerabilidade, utilizando bases de dados fiscais e de segurança para oferecer suporte médico imediato.
