A percepção da saúde física no Brasil vive um descompasso preocupante com a realidade clínica. Embora 60% da população classifique seu estado físico como bom ou ótimo, levantamento recente revela que grande parte desses indivíduos ignora fatores críticos. O estudo, conduzido pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, cruzou hábitos de vida com diagnósticos potenciais e encontrou um cenário de alerta: 63% dos brasileiros estão acima do peso e 42% não praticam qualquer atividade física.
O sedentarismo, apontado como um dos principais vilões silenciosos, é acompanhado por uma frequência baixa entre quem se diz ativo — apenas 2,4 dias por semana, em média. Para Victor Piana, patologista e CEO do centro hospitalar, a inatividade retira da população uma das ferramentas de prevenção mais baratas ao alcance. A obesidade, que atinge 26% dos entrevistados segundo critérios da OMS, atua como gatilho para mais de dez tipos de neoplasias, incluindo tumores de mama, esôfago, pâncreas e intestino.
A alimentação também expõe desigualdades profundas. Se 66% afirmam consumir itens frescos como vegetais e ovos na maior parte da semana, uma parcela significativa enfrenta barreiras estruturais. Entre os que recebem até um salário mínimo, 40% citam o custo elevado de alimentos in natura como o maior empecilho. Já nas faixas de renda mais altas, o problema muda de natureza: 39% apontam a falta de tempo e a exaustão da rotina como impeditivos para uma dieta equilibrada.
O consumo de álcool traz outra revelação paradoxal. A pesquisa indica que 5% dos brasileiros ingerem bebidas alcoólicas de cinco a sete dias por semana. Curiosamente, este grupo de consumo frequente é justamente o que mais se sente saudável, com 64% de avaliações positivas, superando a taxa de 58% registrada entre os abstêmios. Para os especialistas, essa percepção deturpada ocorre porque o prazer da socialização e o relaxamento imediato são confundidos com bem-estar biológico.
A OMS classifica o álcool como uma substância cancerígena, associada a tumores de fígado, boca, garganta e trato digestivo, riscos que se potencializam severamente quando aliados ao tabagismo. O diagnóstico dos pesquisadores é claro: o perigo real não reside nos sintomas que o cidadão sente, mas naquilo que passa despercebido durante a rotina. A boa notícia, contudo, é a possibilidade de reversão. O levantamento, que ouviu 2.015 pessoas acima dos 16 anos em todas as unidades da Federação, conclui que a modificação de hábitos hoje permanece como a estratégia mais eficaz para evitar diagnósticos oncológicos futuros.
