Durante décadas, o clima brasileiro funcionou como uma espécie de termostato biológico. O Rio Grande do Sul, por exemplo, manteve-se resguardado por anos, registrando apenas casos importados de dengue até 2007. A barreira era clara: o Aedes aegypti, dependente de calor e umidade, encontrava limites geográficos naturais no Sul do país. Contudo, essa fronteira cedeu. Em 2024, o estado gaúcho contabilizou números dramáticos, com quase 210 mil infecções confirmadas e 281 óbitos, superando, em dados brutos, a Bahia — um estado habituado às temperaturas elevadas e com uma população significativamente maior.
A situação, longe de ser isolada, reflete uma transformação estrutural. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam que, entre 2006 e 2024, o território brasileiro sob risco epidêmico de dengue mais do que dobrou, saltando de 110 para 292 microrregiões. Hoje, mais da metade do país enfrenta essa ameaça. O motor desse avanço atende pelo nome de anomalias térmicas. O registro de temperaturas atípicas por períodos prolongados tornou-se o principal indicador de longo prazo para explicar o aumento na incidência de casos. O alerta dos especialistas é categórico: o processo de expansão da transmissão parece irreversível.
A biologia do mosquito também se ajustou à nova realidade. Celso Granato, infectologista e membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, explica que o clima impacta cada fase da vida do vetor. Com o calor excessivo, o metabolismo do mosquito acelera; eles voam mais rápido, gastam energia intensamente e, consequentemente, precisam picar com maior frequência para se alimentar. Além disso, os ovos resistem por anos à espera de condições ideais. A transmissão, aliás, já começa na origem, com a fêmea passando o vírus diretamente para sua prole.
O fenômeno ultrapassa as fronteiras brasileiras, afetando desde o Hemisfério Norte até o continente americano. Paralelamente, doenças como a febre do Oropouche, antes restritas à Amazônia, romperam o isolamento geográfico e atingiram 23 estados e o Distrito Federal apenas em 2023. Eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e inundações catastróficas, potencializam outros riscos. O desastre das enchentes no Rio Grande do Sul, por exemplo, disparou a incidência de leptospirose, enquanto a contaminação por esgoto e detritos abriu caminho para surtos gastrointestinais e hepatite A.
Outro desdobramento perigoso, porém menos discutido, envolve o surgimento de patógenos fúngicos. Sarah Gonçalves Tavares, pesquisadora da Universidade Federal do Espírito Santo, observa que o aquecimento global está forçando fungos a se adaptarem à temperatura do corpo humano — a barreira natural dos 37 graus Celsius. À medida que o ambiente externo esquenta, esses microrganismos evoluem para sobreviver em condições antes inóspitas. O caso da Candida auris é emblemático. Identificada no Brasil em 2020, o fungo acumula letalidade de até 82% quando atinge a corrente sanguínea em pacientes hospitalizados. A pressão do uso de fungicidas no campo, somada às alterações climáticas, cria um cenário de resistência farmacológica preocupante, complicando ainda mais a resposta médica a essas infecções emergentes.
