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Diagnóstico tardio da esclerose múltipla acelera danos neurológicos permanentes em brasileiros
Saúde

Diagnóstico tardio da esclerose múltipla acelera danos neurológicos permanentes em brasileiros

Última atualização: 28 de Agosto, 2026 11:25
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
📷 A paciente com esclerose múltipla, Lucimara Santana. Foto: Lucimara Santana/Arquivo pessoal
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A jornada rumo ao diagnóstico de esclerose múltipla é, para muitos brasileiros, um labirinto tortuoso que consome anos de incertezas e erros médicos. Dados recentes revelam uma realidade alarmante: um quarto dos pacientes leva mais de cinco anos até finalmente entender a causa de seus sintomas. Esse atraso não é apenas uma questão burocrática, mas um fator determinante que acelera a progressão de danos irreversíveis ao sistema nervoso central.

O cenário foi detalhado em um estudo conduzido pela HSR Health em parceria com a Roche Farma, cujos números foram trazidos a público pela Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) durante o Agosto Laranja. Ao ouvir 368 pessoas em tratamento, a pesquisa constatou que 56,8% dos pacientes receberam diagnósticos equivocados antes da conclusão definitiva. Em casos extremos, cerca de 14,1% dos entrevistados aguardaram uma década inteira entre os primeiros sinais da enfermidade e o veredito médico.

Rodrigo Kleinpaul, neurologista e coordenador do Ambulatório de Neuroimunologia do Hospital das Clínicas da UFMG, explica que o diagnóstico precoce é o freio necessário para preservar a reserva funcional do cérebro e da medula. Quando esse tempo se perde, a progressão da incapacidade torna-se uma ameaça concreta. Segundo Kleinpaul, o paciente costuma passar por até quatro especialistas diferentes antes de encontrar o caminho correto, enfrentando barreiras que vão desde a falta de preparo profissional até os altos custos de exames fundamentais, como a ressonância magnética.

A esclerose múltipla, uma condição autoimune que atinge aproximadamente 40 mil brasileiros, ataca a mielina — a camada protetora das fibras nervosas. O resultado é uma falha na comunicação entre cérebro e corpo, manifestando-se em sintomas que, frequentemente, são confundidos com quadros de ansiedade ou problemas ortopédicos. Mulheres jovens, entre 20 e 40 anos, são o grupo mais afetado, justamente em um período em que a vida profissional e pessoal exige vigor total.

A trajetória da educadora física Lucimara de Lima Santana ilustra bem esse desgaste. Por quatro anos, ela circulou entre oftalmologistas e ortopedistas sem obter respostas, enquanto sua fadiga e dores eram creditadas a outras condições. O diagnóstico só chegou após sintomas graves que a impediram de trabalhar. Hoje, Lucimara convive com as limitações físicas, adaptando sua carreira de instrutora de Pilates para o ambiente online, buscando manter sua autonomia apesar dos desafios impostos pela doença.

A boa notícia é que o arsenal terapêutico evoluiu. Como destaca Kleinpaul, se uma década atrás o diagnóstico aos 20 anos frequentemente resultava em dependência severa aos 40, hoje a medicina consegue evitar que muitos pacientes cheguem a esse estágio de imobilidade. Contudo, a assistência ainda falha: 41,2% dos pacientes relatam interrupções no tratamento por entraves como a burocracia de planos de saúde ou a falta de insumos.

Além da barreira física, há o peso invisível. Grande parte dos pacientes convive com a depressão e a ansiedade, agravadas pela necessidade de esconder o diagnóstico no trabalho por medo de represálias ou pelo isolamento social autoimposto. O custo de manter a saúde também é uma realidade, com 85,6% dos pacientes reportando despesas extras mensais. O acolhimento, como reforça a classe médica, precisa ir além da prescrição medicamentosa, reconhecendo que a esclerose múltipla não é apenas uma soma de sintomas, mas uma mudança radical na estrutura de vida de quem a enfrenta.

MARCADODiagnóstico Precocedoenças autoimunesEsclerose MúltiplaNeurologiasaúde neurológica
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