O infarto em crianças de apenas dez anos de idade parece um cenário improvável, mas é uma realidade silenciosa provocada pela hipercolesterolemia familiar, uma condição genética que obstrui as artérias precocemente. Para evitar desfechos graves como esse, a recomendação médica atual é direta: toda criança deve dosar seus níveis de colesterol ao completar uma década de vida. A orientação ganha força com um estudo publicado em setembro de 2025 e é defendida pelo cardiologista Renato Jorge Alves, vice-presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).
Neste sábado (8), data que marca o Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, o especialista reforça que o rastreamento precoce e a mudança de hábitos são os caminhos mais eficazes para proteger o coração. Exames preventivos de colesterol e glicose devem caminhar juntos. Quando as taxas de colesterol ultrapassam os 300 miligramas por decilitro (mg/dL), o fator genético fala mais alto e o estilo de vida, sozinho, já não dá conta do recado.
É aí que entra o tratamento medicamentoso com estatinas, alvo constante de teorias sem comprovação nas redes sociais. O médico faz um alerta contra profissionais que desencorajam o uso desses fármacos na internet. Interromper o uso por conta própria faz com que o colesterol volte a subir rapidamente, exatamente como ocorre na hipertensão ou no diabetes. Os benefícios das estatinas são respaldados por mais de trinta anos de evidências científicas sólidas, desde o primeiro grande estudo clínico de 1994, com comprovação na redução de mortes, infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Outra armadilha perigosa é a adesão a modismos alimentares, como a chamada dieta carnívora. Excluir vegetais e consumir apenas carne vermelha eleva drasticamente a ingestão de gorduras saturadas, disparando os níveis de LDL, o colesterol ruim. Essa prática pode elevar o ácido úrico e acelerar a formação de placas nas artérias. O equilíbrio ainda é a regra de ouro: uma dieta saudável precisa dosar proteínas, carboidratos e gorduras benéficas.
Mudanças na alimentação reduzem o colesterol circulante em apenas 10%, já que cerca de 70% da substância é fabricada pelo próprio fígado. Para o restante do controle, o corpo precisa de movimento. A recomendação padrão é somar de 150 a 300 minutos de atividades físicas semanais. Hábitos silenciosos também cobram seu preço: noites mal dormidas e estresse crônico desregulam o metabolismo e inflamam os vasos sanguíneos, facilitando o acúmulo de gordura arterial.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças cardiovasculares continuam no topo das causas de morte no Brasil e no mundo. O avanço da obesidade na população acendeu um novo sinal de alerta, passando a ocupar o posto de quinto maior fator de risco, atrás do tabagismo, diabetes, hipertensão e do próprio colesterol alto. O excesso de peso gera uma inflamação crônica no organismo que desestabiliza as artérias, um perigo compartilhado em menor escala por pacientes de outras doenças inflamatórias, como lúpus, HIV, artrite reumatoide, fibromialgia e colite.
