Fernando de Noronha (PE) – A rotina da professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, era marcada por um desgaste profundo. Mãe solo, ela equilibrava o emprego com a criação de dois filhos, um deles diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) de suporte 2 e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). As crises de agressividade e agitação do menino, somadas ao acúmulo de funções, levaram Rayane ao limite, desencadeando um quadro severo de ansiedade e privação de sono.
O cenário mudou em março, quando a professora iniciou o tratamento do filho com canabidiol. A substância, extraída da cannabis, ajudou a reduzir as crises, trazendo um novo fôlego à convivência familiar. O suporte veio do Projeto Noronha, uma parceria entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a administração local.
O desafio enfrentado pelos moradores da ilha não é apenas clínico, mas logístico. Com o Hospital São Lucas limitado a atendimentos de média complexidade, qualquer necessidade médica mais grave exige uma jornada de 545 quilômetros até o continente, em Recife. Esse isolamento geográfico, segundo dados do próprio projeto, tem cobrado um preço alto na saúde mental dos habitantes, com diagnósticos frequentes de depressão e insônia.
O Projeto Noronha, idealizado por figuras como Ladislau Porto, diferencia-se por não ser uma ação de passagem. Em dois mutirões realizados este ano, foram entregues 221 frascos de óleo de canabidiol e realizadas 126 consultas. Mais do que a entrega do composto, o objetivo é estruturar uma rede permanente. Um terreno cedido pela administração da ilha será transformado em uma sede própria para oferecer acolhimento contínuo, rompendo o ciclo de atendimento precário que costuma ocorrer em outras regiões do país.
A atenção voltada às mães é um pilar central. Ladislau Porto resume a urgência do suporte: quando a criança entra em crise, ela tem a mãe; quando é a mãe que colapsa, muitas vezes ela não encontra rede de apoio. Rebeca Allen, que preside a associação de mães na ilha, vivenciou esse esgotamento ao cuidar do filho de sete anos. Diagnosticada com depressão e ansiedade em 2023, ela também buscou o tratamento com canabidiol. Os resultados foram imediatos, tanto para ela — que recuperou o sono e a organização — quanto para o filho, que se tornou mais colaborativo nas terapias e na escola.
O neurologista Eduardo de Sá Faveret, voluntário da iniciativa, explica que a eficácia do canabidiol reside na sua capacidade de modular o sistema endocanabinoide, responsável pela regulação de estímulos sensoriais como luzes, sons e toques. Em pessoas com TEA, essa função costuma estar alterada, resultando em sobrecarga e hipersensibilidade. Diferente de medicações tradicionais, como a Risperidona, o CBD reduz a agressividade sem causar sedação excessiva.
Essa clareza mental é decisiva para o progresso terapêutico. O psiquiatra Wilson Lessa Junior, também voluntário no projeto, reforça que a criança precisa estar alerta para aproveitar ao máximo a fonoaudiologia, a terapia ocupacional e a psicologia. Ao evitar o efeito de letargia, o canabidiol torna-se uma ferramenta de integração, permitindo que a criança siga ativa e responsiva durante o processo de desenvolvimento, enquanto a mãe ganha a estabilidade necessária para continuar cuidando daqueles que mais dependem dela.
