O documentário Aqui Não Entra Luz, que estreou nos cinemas brasileiros na última terça-feira, dia 7, investiga as raízes históricas e a arquitetura da segregação presente nos lares do país por meio dos chamados quartos de empregada. A diretora Karol Maia utiliza sua própria trajetória familiar para conduzir o espectador por uma reflexão sobre como o espaço físico das residências reflete desigualdades profundas nas relações de trabalho doméstico.
Memórias e reflexões
A cineasta, que assina o roteiro e a direção, baseou parte da narrativa nas vivências de sua mãe, Miriam Mendes, que atuou como empregada doméstica durante a infância de Karol. A diretora destaca que a presença da mãe em ambientes de trabalho nobres ou periféricos revela um ciclo econômico onde o próprio trabalho doméstico é desvalorizado. Ela pontua que, ao contratar alguém mesmo ganhando pouco, a classe média baixa acaba perpetuando uma remuneração insuficiente para a categoria, mantendo o estigma do quartinho escondido na área de serviço.
Histórias de vida
O filme reúne o depoimento de cinco mulheres, incluindo Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, a Rosarinha. Vinda de Minas Gerais, ela relata uma trajetória marcada por promessas de estudo que nunca se concretizaram, forçando-a ao trabalho precoce. Para Rosarinha, participar da obra funciona como um processo de revisitar um passado de injustiças sem carregar mágoas, enquanto projeta o sonho de alcançar a aposentadoria para, enfim, desfrutar de uma rotina dedicada apenas ao seu próprio lar.
Arquitetura e legado colonial
Para fundamentar a tese da herança colonial, a equipe de produção percorreu estados como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão, locais com histórico intenso de mão de obra escravizada. Durante as filmagens em antigas Casas Grandes e Senzalas, Maia notou a disparidade na conservação dos espaços. Enquanto áreas nobres eram preservadas com materiais nobres, as estruturas destinadas aos escravizados eram negligenciadas, uma lógica de segregação que a cineasta identifica como precursora das atuais entradas de serviço e quartos isolados em prédios modernos.
Avanços legislativos
O debate sobre essa estrutura arquitetônica chegou recentemente ao poder público. No dia 22 de abril, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar 18/25, que veda o uso de termos como quarto ou dependência de empregada em novos projetos arquitetônicos. A proposta, de autoria da deputada Denise Pessôa, é vista por especialistas como a relatora Marcivania como um passo fundamental para desnaturalizar a cultura da servidão e incentivar relações de trabalho pautadas no respeito e na dignidade humana.
