A psicóloga Karla Garcia Luiz, que possui uma deficiência física que compromete sua mobilidade, desafia estigmas sociais ao compartilhar sua trajetória como mãe de Helena, de 5 anos. Mestra e doutora pela Universidade Federal de Santa Catarina, Karla utiliza sua experiência pessoal e profissional para questionar a visão limitada de que pessoas com deficiência seriam apenas receptoras de assistência, incapazes de assumir o papel de cuidadoras.
A ressignificação do ato de cuidar
A maternidade, na perspectiva de Karla, transcende a execução física de tarefas cotidianas. Ela explica que o cuidado pode ser exercido de maneiras variadas, mesmo quando a mãe depende de auxílio para sua própria autonomia. Em situações onde não conseguia dar banho na filha, por exemplo, ela exercia o papel de cuidadora ao orientar o pai sobre a higiene, a escolha das roupas e o acompanhamento próximo da criança, provando que a gestão do cuidado é uma forma legítima de exercer a maternidade.
O aprendizado mútuo na rotina
A convivência com a deficiência desde cedo proporcionou a Helena um olhar natural sobre as diferenças. Karla relembra episódios marcantes, como quando a filha, ainda com um ano e meio, tentava ajudá-la a levantar ou ajustava o apoio para as pernas da mãe durante a amamentação. Esses gestos demonstram que a criança compreendeu precocemente as adaptações necessárias, integrando a realidade da mãe ao seu cotidiano sem qualquer estranhamento.
Desafios e perspectivas sociais
A psicóloga ressalta que essa vivência amplia o repertório social da filha, permitindo que ela reconheça as múltiplas formas de existir no mundo. No entanto, Karla aponta que a sociedade ainda caminha a passos lentos para romper com o preconceito. Ela lamenta que mulheres com deficiência precisem constantemente reivindicar o direito à maternidade, enfrentando olhares julgadores e concepções equivocadas que insistem em negar sua capacidade de criar e educar com autonomia.
Para Karla, o objetivo central de seu relato é fomentar uma mudança de pensamento. Ao trazer o debate para o espaço público, ela busca desconstruir a ideia de que a deficiência física é um impedimento para o afeto ou para a responsabilidade materna. A naturalidade com que Helena encara a condição da mãe serve como um exemplo de que a inclusão começa pela desmistificação das barreiras impostas pelo imaginário coletivo.
