Campinas (SP) – O Ministério Público e a Polícia Civil de São Paulo deflagraram nesta terça-feira a Operação Infiltrados, uma ofensiva que mirou supostas conexões criminosas dentro das próprias forças de segurança. A ação cumpriu três mandados de prisão e realizou buscas em dez endereços distintos nas cidades de Campinas e Cardoso. No centro da investigação, um plano arquitetado para tirar a vida de um promotor de Justiça paulista, envolvendo a cooptação de servidores.
Entre os alvos da operação estão figuras que ocupavam cargos de confiança ou proximidade com o sistema jurídico. Um chefe de investigadores da Polícia Civil em Campinas, um ex-policial civil, um policial penal e até um ex-estagiário do próprio Ministério Público foram identificados como peças-chave do esquema. As equipes de busca vasculharam não apenas residências, mas também escritórios de advocacia, em busca de documentos e dispositivos que comprovem a extensão do vazamento de informações sigilosas.
Tudo começou com os desdobramentos das operações Pronta Resposta e OFF White, ocorridas em agosto de 2025. Naquele momento, as autoridades já haviam detectado que a facção Primeiro Comando da Capital, o PCC, planejava executar o promotor Amauri Silveira Filho. O elo revelado pelos novos dados é perturbador: vídeos mostram um encontro, ocorrido apenas sete dias antes da fase anterior das investigações, entre o suposto executor do crime e o chefe dos investigadores da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes de Campinas.
O nível de penetração da criminalidade no aparelho estatal surpreende até os investigadores mais experientes. O Ministério Público tenta agora delimitar exatamente quais dados sensíveis foram transferidos para as mãos de criminosos. A pergunta que paira sobre a corregedoria é quem mais teve acesso a essas rotas protegidas por sigilo funcional.
Paralelamente, a operação descobriu uma faceta de extorsão protagonizada por um estagiário que, ao que tudo indica, entrou no Ministério Público com um objetivo pré-definido. O estudante havia se alocado em uma Promotoria de Justiça Criminal de Campinas, aproveitando-se do acesso privilegiado a bancos de dados e sistemas de consulta interna. Segundo as apurações, ele cruzava informações para identificar membros do PCC com grande poder financeiro.
O roteiro era metódico: com o suporte de outros agentes, o estagiário identificava criminosos endinheirados e, sob a promessa de oferecer proteção em investigações, exigia pagamentos vultosos. O que era para ser um estágio jurídico transformou-se em uma central de extorsão, utilizando o aparato estatal para garantir lucro pessoal e obstruir o curso da justiça.
Os próximos dias serão cruciais para a análise do material apreendido durante a manhã desta terça-feira. Além da tentativa de homicídio, a lista de crimes sob apuração é extensa: inclui corrupção passiva, violação de sigilo funcional e o uso sistemático da estrutura pública para benefício do crime organizado. O caso expõe a vulnerabilidade de sistemas internos que deveriam ser impenetráveis.
