O corpo envia avisos, mas a resposta nem sempre chega no tempo necessário. Sangue nas fezes ou mudanças drásticas no funcionamento do intestino por mais de um mês são sinais de alerta clássicos para o câncer colorretal. Mesmo cientes da gravidade, uma parcela significativa dos brasileiros prefere esperar a situação evoluir a buscar ajuda médica imediata.
Um levantamento realizado em parceria pelo A. C. Camargo e a Nexus, que ouviu mais de 2 mil pessoas, revelou uma desconexão preocupante entre a percepção do risco e a atitude diante dos sintomas. Oito em cada dez entrevistados reconhecem que a presença de sangue ou alterações intestinais são quadros graves. Aproximadamente 67% concordam que tais manifestações podem indicar a doença. Ainda assim, quase 50% dos entrevistados hesitam em marcar uma consulta logo após notar os primeiros sinais.
Os números detalham a inércia: entre os 9% de participantes que já observaram sangue nas fezes, 40% não buscaram atendimento profissional de imediato. Desse grupo, 19% apenas aguardaram o sintoma desaparecer espontaneamente. Outros 10% esperaram dias ou semanas, enquanto 7% tentaram resolver o problema com mudanças na dieta ou remédios caseiros. Houve ainda quem optasse pela automedicação em farmácias ou buscas na internet como primeira alternativa.
O desconhecimento sobre formas de prevenção é outro obstáculo. O exame de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes (PSO), fundamental para identificar a doença antes que ela apresente sintomas, é uma incógnita para 67% dos ouvidos na pesquisa. Apenas 11% realizaram o procedimento. A falta de informação é mais aguda entre os jovens de 16 a 24 anos, com 85% de desconhecimento, além de atingir 76% dos homens e ser mais prevalente em faixas de menor renda e escolaridade.
Samuel Aguiar, que lidera o Centro de Referência de Tumores Colorretais do A. C. Camargo Cancer Center, enfatiza que ignorar sinais como dor abdominal persistente e perda de peso sem explicação é um erro arriscado. Ele recomenda que exames preventivos, como a própria PSO e a colonoscopia, entrem no cronograma de saúde a partir dos 45 anos, ou antes, dependendo do histórico familiar de cada indivíduo.
O cenário é de urgência. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA) preveem a incidência de 53.810 novos casos anuais no Brasil para o triênio 2026-2028. Esse tipo de tumor já ocupa o posto de segundo com maior incidência no país. O impacto da doença na esfera pública tornou-se ainda mais evidente com o falecimento da cantora Preta Gil, em julho do ano passado, após um longo processo de tratamento.
O diagnóstico precoce segue como a arma mais eficaz para aumentar as chances de cura. Quando detectado em estágios iniciais, o tratamento ganha horizontes muito mais favoráveis, transformando exames muitas vezes vistos como incômodos em ferramentas vitais de sobrevivência.
