Nova Delhi, Índia – Reunidos na capital indiana, Nova Delhi, os líderes do BRICS aprovaram uma declaração conjunta que expõe o delicado equilíbrio diplomático do bloco diante das crises globais. O documento de 35 páginas, intitulado “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, foi divulgado neste sábado (12). Sem citar diretamente os Estados Unidos ou o presidente Donald Trump, o texto critica abertamente as tarifas unilaterais que afetam o comércio global e defende uma reestruturação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).
A reforma do principal órgão de segurança multilateral é um pleito antigo do Brasil. No texto final da cúpula, China e Rússia — membros permanentes do Conselho de Segurança com poder de veto — reforçaram o apoio às pretensões brasileiras e indianas de assumirem maior protagonismo nas Nações Unidas. Embora o documento não mencione explicitamente a concessão de assentos permanentes ao Brasil e à Índia, o gesto político fortalece a posição do governo brasileiro, que presidiu o BRICS em 2025 e sediou o encontro anual do grupo no Rio de Janeiro, em julho daquele ano.
O maior teste de coesão do bloco ocorreu na redação sobre a escalada militar no Oriente Médio. O conflito, iniciado em fevereiro com ofensivas dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã sob a alegação de desenvolvimento de armas nucleares — acusação que Teerã nega —, colocou em lados opostos integrantes do próprio BRICS. Em resposta aos ataques, o governo iraniano retaliou contra a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, nações alinhadas a Washington que agora compõem o grupo de economias emergentes.
Para contornar as divisões internas e alcançar um consenso, a diplomacia adotou uma linguagem ponderada e impessoal. O parágrafo 28 evita termos como “guerra” ou menções nominais aos envolvidos, limitando-se a manifestar profunda preocupação com o agravamento das tensões na Ásia Ocidental e a pedir moderação. Estiveram presentes na mesa de negociações lideranças de peso, incluindo o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, os presidentes Xi Jinping, da China, Vladimir Putin, da Rússia, Cyril Ramaphosa, da África do Sul, e o mandatário iraniano Masoud Pezeshkian. O Brasil foi representado pelo chanceler Mauro Vieira, enquanto os Emirados Árabes enviaram o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Sheikh Khaled bin Mohamed bin Zayed Al Nahyan.
No front econômico, o BRICS direcionou suas baterias ao “tarifaço” imposto pela gestão de Donald Trump a partir de 2025, movimento protecionista que atinge diretamente Brasil, China e Índia. Os signatários classificaram as medidas unilaterais como incompatíveis com a Organização Mundial do Comércio (OMC). Para contornar gargalos financeiros, o bloco avançou nas discussões sobre pagamentos transfronteiriços em moedas locais, descartando, contudo, qualquer proposta imediata de criação de uma moeda única ou substituição do dólar.
Desigualdade social
A agenda social também ganhou espaço no documento. Os 11 países-membros — que juntos somam 48,5% da população global, 39% do PIB mundial e 23% do comércio do planeta — concordaram que a superação da pobreza extrema é o principal desafio internacional para o desenvolvimento sustentável. Diante disso, a cúpula acolheu uma proposta conjunta do Brasil e da África do Sul para a criação de um painel internacional voltado ao combate às desigualdades.
