Washington, Estados Unidos – O cerco diplomático de Washington a Brasília vai se estender por mais tempo do que o previsto. Na terça-feira, 28 de julho, o governo norte-americano confirmou a renovação da emergência nacional em relação ao Brasil, uma medida drástica que agora se estenderá até pelo menos 30 de julho de 2027. O mecanismo, originalmente adotado em julho de 2025, rotula as políticas e as decisões institucionais brasileiras como uma ameaça “incomum e extraordinária” à segurança interna, à estabilidade econômica e à política externa dos Estados Unidos.
O decreto de prorrogação deve ser publicado formalmente no diário oficial norte-americano, o Federal Register, nesta quarta-feira, 29 de julho, além de ser enviado diretamente ao Congresso em Washington. Trata-se da manutenção da Ordem Executiva 14323, um dispositivo que serve de base para o endurecimento das relações bilaterais e que, segundo a justificativa oficial da Casa Branca, continua necessário porque as condições que motivaram a sua criação ainda persistem na totalidade.
Por trás da medida de Washington há um diagnóstico severo sobre o funcionamento das instituições brasileiras. A gestão norte-americana aponta que autoridades no Brasil vêm implementando medidas que interferem diretamente na economia dos Estados Unidos, além de violarem direitos humanos e restringirem a liberdade de expressão de cidadãos do país norte-americano. O alvo principal desse descontentamento é o Supremo Tribunal Federal (STF). A Casa Branca aponta decisões da Suprema Corte voltadas à exclusão de perfis em redes sociais e à prisão de manifestantes como atos de “censura” incompatíveis com os interesses geopolíticos de Washington.
Outro ponto de fricção citado expressamente na fundamentação americana é o cenário político doméstico do Brasil. Washington sustenta que um ex-presidente brasileiro, juntamente com seus familiares e aliados mais próximos, enfrenta um processo de perseguição política sistemática. Na avaliação do governo norte-americano, esse cenário enfraquece o Estado de Direito e resulta em violações reiteradas aos direitos fundamentais no país.
Escalada comercial e diplomática
A decisão de estender a emergência nacional coroa um período de doze meses de hostilidades crescentes entre os dois países. Desde que a ordem executiva entrou em vigor, sob a presidência de Donald Trump, a Casa Branca impôs barreiras severas, abrindo investigações comerciais e aplicando tarifas sobre uma série de produtos exportados pelo Brasil. A pressão econômica veio acompanhada de reiterados questionamentos sobre os rumos do Judiciário brasileiro, especialmente no que tange à moderação de conteúdo em plataformas digitais e às ações penais que envolvem o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A reação de Brasília concentrou-se na arena diplomática e comercial. O governo brasileiro buscou canais de diálogo com Washington e levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando a legalidade das sobretaxas aplicadas pelos americanos sob o argumento de que violam os tratados multilaterais de livre comércio. Integrantes do Executivo em Brasília reforçam que o Judiciário opera com total independência, enquanto o STF defende que suas decisões estritas cumprem ritos estabelecidos na Constituição Federal. No entanto, o esforço de interlocução não surtiu o efeito desejado, e a administração Trump optou por manter e ampliar as sanções e as restrições ao longo do último ano. Até o fechamento desta edição, o governo brasileiro ainda não havia emitido um posicionamento oficial sobre a renovação do decreto.
