São Gonçalo (RJ) – Eric Araujo Siqueira Pereira, que exercia o sacerdócio, recebeu uma sentença de 48 anos, 1 mês e 10 dias de reclusão. A decisão da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, encerrou um processo que detalhou um cenário de violências físicas e psicológicas, estupro de vulnerável e fornecimento de material pornográfico infantil.
O veredito foi anunciado na madrugada desta quarta-feira (5), após o Conselho de Sentença decidir pelo acolhimento total da tese sustentada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ). As provas apresentadas aos jurados demonstraram que as agressões ocorriam dentro do ambiente doméstico entre outubro de 2020 e maio de 2021, enquanto o réu vivia com sua companheira, os dois enteados e uma filha do casal.
Um dos pontos mais perturbadores analisados pelo tribunal foi a prática de instigação ao suicídio. A 1ª Promotoria de Justiça expôs que o ex-padre submetia uma das vítimas a castigos em um terraço sem qualquer proteção. Em momentos de abuso psicológico, ele incentivava a criança a se lançar do local, utilizando um discurso que associava a morte a um suposto encontro com o “papai do céu”, onde a vítima encontraria a felicidade.
Os jurados concluíram que Pereira utilizou deliberadamente a vulnerabilidade da criança para manipulá-la a atentar contra a própria vida. Esse comportamento, somado aos demais crimes, pesou na dosimetria da pena estabelecida pelo magistrado.
O caso ganhou contornos mais claros após uma mudança drástica no comportamento de uma das crianças. Inicialmente, o quadro clínico foi interpretado como esquizofrenia. Contudo, após o encaminhamento para atendimento especializado, uma equipe multidisciplinar detectou que o sofrimento mental era, na verdade, uma resposta direta às violências impostas pelo padrasto.
A descoberta do histórico de traumas permitiu que o Ministério Público aditasse a denúncia inicial, expandindo a acusação para incluir o fornecimento de pornografia, os abusos sexuais recorrentes e o estímulo ao suicídio. O desfecho na vara criminal de São Gonçalo encerra a fase de instrução de um caso que expôs a extensão da brutalidade ocorrida sob o teto da residência da família.
