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Religião define exigências do eleitor brasileiro em relação a candidatos a cargos políticos
Política

Religião define exigências do eleitor brasileiro em relação a candidatos a cargos políticos

Última atualização: 20 de Agosto, 2026 10:41
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
📷 Tomaz Silva/Agência Brasil
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Rio de Janeiro (RJ) – O cenário eleitoral brasileiro encontra um ponto de convergência notável entre o eleitorado, independentemente da região: a exigência de que os postulantes a cargos públicos professem fé em Deus. O levantamento revela que oito em cada dez cidadãos, o equivalente a 81%, consideram esse critério como um requisito fundamental. A adesão a essa postura cresce conforme diminui a renda familiar; entre aqueles que vivem com até um salário mínimo, a percepção de que a crença é indispensável atinge 89%, enquanto no estrato dos mais ricos — com rendimentos entre 10 e 20 salários — esse índice cai para 57%.

Os números fazem parte de um estudo inédito conduzido pelo Laboratório de Estudos Sócio Antropológicos em Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense (UFF). O levantamento foi divulgado nesta quarta-feira (19), durante a abertura do 1º Congresso Internacional e Multidisciplinar sobre Sociedade, ocorrido na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A centralidade da figura de Deus, especialmente nas camadas de menor renda, se reflete em outras pautas de costumes. Quase três quartos da população, ou 74%, acreditam que o exercício da fé torna os indivíduos melhores. A crença na influência positiva do divino chega a 86% entre os mais pobres. Além disso, a defesa de que instituições de ensino incorporem a crença em Deus no currículo de crianças e adolescentes é apoiada por 82% dos entrevistados.

A socióloga Christina Vital, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFF, ressalta uma ambiguidade relevante: a valorização de Deus não se traduz, necessariamente, em confiança plena nas igrejas. Os dados mostram que a Igreja Católica detém o maior índice de credibilidade, com 56%, seguida pelas denominações protestantes, com 51%, e centros kardecistas, com 19%.

Essa relação complexa reverbera na própria percepção sobre o papel do Estado. Metade dos pesquisados, 54%, rejeita o modelo de Estado laico. Segundo Vital, existe uma incompreensão estrutural sobre o conceito de laicidade, que muitas vezes é interpretado fora do contexto de separação entre as esferas religiosa e pública.

Para Michel Gherman, à frente do Observatório das Crises das Democracias das Américas da UFRJ, esses dados revelam como setores da extrema-direita exploraram sentimentos religiosos para promover um desejo de retorno a um período idealizado. O especialista argumenta que não foi a ascensão do cristianismo que empoderou a extrema-direita, mas sim a estratégia política de instrumentalizar valores religiosos em prol de um projeto voltado ao passado.

A tática, conforme Gherman, se manifesta em teorias que ganham tração no Rio de Janeiro, onde 70% dos candidatos corroboram a visão de que existiria uma conspiração progressista atuando para a degeneração moral. Essa busca por ordem acaba servindo de combustível para discursos de grupos que se fortalecem ao explorar o medo de ameaças invisíveis.

A retórica do que foi perdido no passado atravessa diferentes estratos sociais e demográficos. No entanto, o cientista político Lucio Rennó, da Universidade de Brasília (UnB), enfatiza que a estatística não mente: há uma relação de identidade clara entre o eleitorado evangélico e a preferência pela extrema-direita, traduzindo um movimento onde o eleitor opta, invariavelmente, por quem reflete a sua própria imagem e valores.

MARCADOEleiçõesPolítica BrasileirareligiãosociologiaUFF
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