Camaragibe (PE) – O 0 a 0 contra a Espanha, atual campeã europeia e candidata ao título mundial de 2026, transformou o goleiro Vozinha em um fenômeno global. A atuação de gala no campo ecoou com força digital: o atleta cabo-verdiano viu seu número de seguidores saltar para 11 milhões, com uma legião de brasileiros adotando o paredão como xodó e lotando suas postagens com pedidos para que ele cuide da meta verde e amarela. Entre o furacão de elogios, existe uma ligação direta entre o ídolo das traves e o cotidiano de Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife.
Josimar Dias, o Vozinha, possui um irmão que trocou o arquipélago africano pelo solo pernambucano. Kleidir Dias, professor de matemática, desembarcou no Brasil há quatro anos motivado por um relacionamento amoroso e aqui fincou raízes. Embora o futebol tenha separado a trajetória dos dois — um nos gramados profissionais da elite, outro na lousa e na sala de aula —, a conexão entre ambos permanece inabalável, mediada por chamadas de vídeo frequentes.
O reencontro presencial é uma pendência que Kleidir espera resolver o quanto antes. Enquanto isso, o professor acompanha a ascensão do irmão mais velho com orgulho, relembrando o tempo em que as balizas eram apenas quatro pedras sobre o chão de terra. O próprio nome de batismo do goleiro, Josimar, é uma homenagem direta ao lateral-direito da Seleção Brasileira que brilhou em 1986. Já o apelido, que hoje ecoa nos estádios, nasceu de uma bronca de infância: o menino detestava ser vazado e, após as derrotas, corria para o colo dos avós, despertando o deboche dos amigos.
Na última segunda-feira, após o apito final do histórico empate, Kleidir utilizou as redes sociais para registrar a euforia que tomou conta de sua família. Para ele, o dia 15 de junho de 2026 está gravado como um marco afetivo. O professor garante que, apesar da explosão de fama, o goleiro mantém intacta a cultura da “morabeza”, conceito típico de Cabo Verde que preza pela simplicidade, pela hospitalidade e pela tranquilidade.
Para Kleidir, o cenário pós-copa não terá ostentação. Ele projeta que, tão logo o campeonato encerre sua jornada, Vozinha trocará as luvas e os holofotes por chinelos e roupas leves, preferindo o aconchego doméstico a qualquer brilho passageiro. O próximo capítulo desse desempenho será observado de perto pelos brasileiros e, com ainda mais expectativa, pelo professor em Pernambuco: o goleiro volta a campo no dia 21 de junho contra o Uruguai e, posteriormente, enfrenta a Arábia Saudita no dia 26.
A torcida local, que já abraçou o camisa 1, aguarda que o voo de Vozinha se estenda muito além da fase de grupos. Se o desejo de Kleidir for atendido, o abraço entre os dois irmãos acontecerá em breve, longe das câmeras e da pressão da Copa, selando o reencontro de uma família que, hoje, divide o coração entre a terra que acolheu um professor e o gramado que consagrou um goleiro.
