O Departamento do Tesouro dos EUA oficializou nesta quarta-feira (20) um marco preocupante para a economia global: a dívida pública total do país superou, pela primeira vez na história, a barreira dos US$ 40 trilhões. O balanço diário da pasta revelou que o montante em circulação atingiu US$ 40,047 trilhões, resultado que consolida uma escalada acelerada de obrigações financeiras, composta por títulos detidos pelo público e dívida interna do próprio governo.
O cenário revela uma trajetória meteórica. Para se ter uma ideia, quando Donald Trump assumiu a presidência pela primeira vez, em janeiro de 2017, a dívida somava US$ 19,95 trilhões. Menos de uma década depois, o valor praticamente dobrou. Especialistas apontam que cerca de um terço desse salto foi impulsionado pelo fluxo frenético de gastos durante a pandemia de Covid-19, mas a política fiscal recorrente de ambos os governos — Trump e Joe Biden — também desempenhou um papel central no agravamento do desequilíbrio.
A situação é monitorada com lupa por organizações de controle orçamentário. Maya MacGuineas, presidente do Comitê para um Orçamento Federal Responsável, alerta que o número não é apenas uma abstração contábil. Ela aponta que o peso dessa dívida atinge diretamente o cotidiano dos cidadãos, inflamando a inflação e limitando a margem de manobra do Estado para lidar com crises futuras. “É impressionante como o declínio fiscal de uma potência global pode se tornar previsível”, resumiu a analista, destacando que levou décadas para se chegar ao primeiro trilhão, mas apenas cinco meses para saltar de US$ 39 para US$ 40 trilhões.
O mercado financeiro já sente o tremor. Investidores exigem retornos cada vez maiores para adquirir papéis do governo, elevando os rendimentos dos títulos de longo prazo aos patamares mais altos em quase duas décadas. Em uma tentativa de conter a volatilidade, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou a duplicação das operações de recompra de títulos de 10 a 30 anos, fixando o volume em pelo menos US$ 4 bilhões por operação.
O peso do serviço da dívida tornou-se um dos principais gargalos do orçamento. Atualmente, o país destina US$ 1,1 trilhão apenas para quitar juros, um custo que já superou o orçamento do Pentágono e, mais recentemente, os gastos com o Medicare. Com as receitas fiscais insuficientes para cobrir programas obrigatórios, como a Previdência Social, o país vive uma pressão crescente sobre seus cofres, agravada pelo declínio do apetite de credores estrangeiros, que historicamente sustentaram o financiamento da dívida americana.
O desafio estrutural permanece ignorado por parte da classe política. Enquanto o governo busca ajustes em áreas discricionárias, a maior fatia do orçamento — programas obrigatórios — continua crescendo em um ritmo incompatível com a arrecadação. Com o déficit dos primeiros 10 meses do ano fiscal de 2026 já superando o total acumulado de 2025, a pergunta que paira sobre Washington é quanto tempo a economia americana conseguirá suportar essa carga sem medidas drásticas de corte de gastos ou aumento de tributos.
