Uma movimentação financeira vinda de Washington coloca o Brasil no centro de uma estratégia internacional de influência. Documentos revelam que o governo dos Estados Unidos separou US$ 1 milhão — o equivalente a cerca de R$ 5,1 milhões — para financiar uma campanha voltada ao que o projeto descreve como combate ao lawfare e à censura no País. O alvo direto dessa iniciativa é a atuação do STF, descrita nos documentos como excessiva e censória.
O montante é proveniente do Fundo de Direitos Humanos e Democracia (HRDF), uma conta sob responsabilidade do Congresso norte-americano. Até o momento, paira uma dúvida técnica relevante: não está claro se o recurso foi efetivamente transferido ou se houve apenas o empenho da verba para grupos da sociedade civil que se alinham a essa pauta. O STF, consultado sobre a repercussão dessas informações, não apresentou posicionamento oficial.
A tensão entre o Judiciário brasileiro e o atual governo americano não é recente. A gestão Trump tem mantido um histórico de atrito com o Supremo, impulsionado por críticas severas às restrições impostas a plataformas digitais sediadas nos EUA. Washington sustenta a posição de que tais regulações — desenhadas para coibir crimes cibernéticos — funcionariam na prática como barreiras à liberdade, pressionando países ao redor do mundo para que evitem qualquer tipo de controle sobre as bigtechs.
O cenário é complexo. O histórico de hostilidade incluiu, no ano passado, a imposição de sanções ao ministro Alexandre de Moraes, movimento articulado após interlocuções de Eduardo Bolsonaro. A narrativa de oposição ao STF ganhou tração especialmente durante o desenrolar do julgamento sobre a tentativa de golpe de Estado, que resultou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão.
Esses US$ 1 milhão fazem parte de um tabuleiro bem maior. Sob o comando do secretário Marco Rubio, o Departamento de Estado dos EUA destinou um total de US$ 176,9 milhões para financiar 43 projetos espalhados pelo globo. A agenda reflete prioridades específicas da Casa Branca, como os alertas do vice-presidente JD Vance sobre o que chama de colapso de valores ocidentais e a atuação de Stephen Miller no combate à imigração.
A estratégia não se limita ao Brasil. O Reino Unido, por exemplo, figura no roteiro com um financiamento de US$ 5 milhões para grupos que combatem legislações de segurança online, como a Lei de Segurança Online da Grã-Bretanha. Para a administração americana, proteger crianças de conteúdos nocivos via verificação de idade é visto, sob essa ótica, como uma forma de censura institucionalizada.
