Brasília (DF) – O monitoramento de fluxos financeiros suspeitos revelou um esquema de cooptação dentro do Departamento de Supervisão do Banco Central (BC). Documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo delegado responsável pelas investigações detalham como Belline Santana, antigo chefe da área, teria garantido um rendimento mensal de R$ 500 mil. O valor era pago por Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, instituição que teve sua liquidação decretada pelo órgão regulador em novembro de 2023.
A relação entre o ex-banqueiro e o servidor público extrapolava as esferas institucionais. O relatório da Polícia Federal, cujo sigilo foi derrubado na noite de quinta-feira (11) pelo ministro André Mendonça, descreve o custeio integral de uma estadia em Paris para Santana, incluindo gastos com gastronomia e passeios. O suporte financeiro, porém, não era constante: houve registro de transferências que saltaram para R$ 760 mil, conforme apontado em trocas de mensagens entre Vorcaro e seu operador financeiro, Fabiano Zettel.
O foco das autoridades não se restringiu à chefia do departamento. Paulo Sérgio Neves de Souza, gerente adjunto da mesma unidade, também consta como beneficiário de vantagens que a investigação classifica como indevidas. Entre as contrapartidas identificadas pela PF, chama a atenção uma viagem aos parques da Disney, nos Estados Unidos, além de uma transação imobiliária descrita como atípica, envolvendo a compra de uma propriedade rural pertencente ao servidor.
A suspeita central é de que ambos os funcionários atuavam como consultores informais de Vorcaro, fornecendo dados internos sigilosos sobre a Operação Compliance Zero — um procedimento que investiga fraudes financeiras na casa dos bilhões relacionadas ao Banco Master. O material probatório soma 164 páginas e inclui conversas onde Souza chega a compartilhar sua portaria de nomeação com o ex-banqueiro, classificando o encontro com o empresário como uma prioridade absoluta para os interesses da instituição financeira.
As reuniões não ocorriam apenas em ambientes oficiais. O relatório aponta encontros frequentes em residências particulares, onde ocorria a revisão de documentos e o alinhamento de defesas. Embora os vínculos entre os servidores e o dono do Banco Master já fossem alvo de escrutínio desde a decretação da prisão preventiva de Vorcaro, o acesso ao conteúdo integral das mensagens traz agora a dimensão financeira da suposta corrupção.
Atualmente afastados de suas funções, tanto Belline Santana quanto Paulo Sérgio Souza refutam as acusações. Em manifestações anteriores, ambos negaram qualquer vazamento de segredos do Banco Central e afirmaram possuir documentos que comprovam o custeio próprio de todas as viagens e despesas mencionadas pela investigação. O caso permanece sob análise da corte suprema.
