Embora representem apenas cerca de um terço das candidaturas nas urnas, as mulheres foram alvo de mais da metade das agressões políticas registradas durante a campanha até o primeiro turno das eleições, no dia 4 de outubro. Em um intervalo de quatro anos, os processos por violência política de gênero no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) saltaram de 15, em 2022, para 177 em 2026 — um crescimento de 11 vezes no volume de ações jurídicas.
Um levantamento feito pelas organizações de direitos humanos Terra de Direitos e Justiça Global contabilizou 134 episódios de violência política ao longo da corrida eleitoral, o equivalente a uma ocorrência a cada nove horas. Do total de casos, 70 vitimaram mulheres (52,2%). Quando o recorte foca estritamente nas 102 ocorrências contra candidatas e candidatos, a disparidade é ainda maior: 60 episódios (58,8%) visavam concorrentes do sexo feminino.
Ameaças e exposição na prática
A dimensão da hostilidade reflete-se na trajetória da deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva (PT-MG). Aos 21 anos, ela tornou-se a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados e a parlamentar mais jovem já eleita no país, obtendo 524.219 votos — ocupando a segunda colocação no estado, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL). Durante a campanha, a parlamentar registrou denúncia na Polícia Civil após receber mensagens com ameaças de morte, ataques machistas, racistas e intimidações de violência sexual, além de ter tido endereço, telefone e documentos vazados na internet, o que exigiu a contratação de escolta armada por seu partido.
A violência atinge contornos ainda mais graves no recorte de raça. Dados do Disque 180 apontam que, entre janeiro e agosto de 2026, foram registradas 1.564 denúncias de violência política contra mulheres. Mais de 53% desses relatos (842 casos) partiram de mulheres pretas e pardas, enquanto mulheres brancas somaram 590 denúncias (37,72%) e concorrentes de outras etnias responderam por 132 notificações (8,44%). No fim de setembro, entidades da sociedade civil entregaram ao TSE um dossiê detalhando desde agressões verbais até ameaças de estupro e homicídio contra postulantes a cargos públicos.
Questão estrutural e histórico de ataques
Para Sandra Kennedy, secretária Nacional de Articulação Intersetorial e Participação Política do Ministério das Mulheres, o avanço desses episódios não é isolado, mas parte de uma engrenagem patriarcal que tenta afastar as mulheres do poder. O acirramento coincide simbolicamente com o Dia Nacional de Luta contra a Violência à Mulher, lembrado neste sábado (10) em memória ao ato histórico de 1980 nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo.
O cenário atual resgata episódios marcantes da história recente do país, como o assassinato da vereadora Marielle Franco em março de 2018 no Rio de Janeiro; a importunação sexual sofrida pela deputada estadual Isa Penna por Fernando Cury na Alesp em dezembro de 2020; o ataque de Jair Bolsonaro à deputada Maria do Rosário em 2014; a retirada da escolta da deputada Talíria Petrone em julho deste ano sob ameaça de milícias; e os episódios de interrupções e rotulações machistas sofridos pelas senadoras Simone Tebet e Soraya Thronicke durante a CPI da Covid em 2021.
Canais de denúncia
Avisos e denúncias de violência política contra a mulher podem ser encaminhados gratuitamente pelo Ligue 180 (por telefone, WhatsApp no número 61 9610-0180, e-mail central180@mulheres.gov.br ou videochamada em Libras). O apoio também pode ser acionado por meio da Ouvidoria das Mulheres do CNMP, da Procuradoria-Geral Eleitoral, da Ouvidoria Nacional da Mulher do CNJ, do canal Comunica PF da Polícia Federal e do Grupo de Trabalho Mulheres da DPU. Em emergências, a Polícia Militar deve ser chamada pelo 190.
