Luiz Carlos, aos 71 anos, conhece bem o peso da dependência, embora tenha iniciado seu drama nos anos 80, longe da conectividade de hoje. Para ele, o cenário atual é muito mais perigoso. Onde antes havia o esforço de sair de casa para buscar máquinas de videopôquer, agora existe um cassino disponível na palma da mão, vinte e quatro horas por dia. Integrante do grupo de apoio Jogadores Anônimos, Luiz Carlos observa um movimento preocupante: a chegada constante de jovens, alguns com apenas 14 anos, que buscam refúgio contra um vício que já desestruturou suas vidas financeiras e psicológicas.
A trajetória de Gustavo Pereira, de 24 anos, ilustra a espiral de destruição que esse cenário provoca. O jovem começou a apostar aos 18 e, num período de seis anos, viu meio milhão de reais desaparecerem. Ele descreve a perda de noção sobre o valor do dinheiro, algo que o vício distorce ao oferecer ganhos momentâneos e fictícios dentro da plataforma. Hoje, tentando se reerguer como vendedor de café nas ruas de Lages, Santa Catarina, ele admite que o custo foi alto demais: depressão e síndrome do pânico foram companheiras constantes de uma rotina consumida pelo desejo de apostar.
A vulnerabilidade dessa faixa etária não é coincidência, mas uma característica neurológica. A psicóloga Mariana Kehl pontua que, enquanto o núcleo cerebral responsável pela busca de prazer e pela dopamina opera em alta velocidade, as áreas encarregadas pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos só atingem a maturidade plena após os 20 anos. Para o adolescente, o prazer momentâneo de uma vitória é sentido intensamente, mas o freio necessário para evitar a jogada seguinte é, fisicamente, um aparato ainda em construção.
Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) reforçam a dimensão do problema: uma em cada cinco pessoas no mundo inicia a prática de apostas online antes dos 11 anos. No Brasil, uma pesquisa da Frente Parlamentar Mista de Educação, realizada em 2026, revelou que 9,5% dos estudantes ouvidos fizeram sua primeira aposta aos 11 anos, sendo que quase a metade dos alunos do 3º ano do ensino médio já entrou nesse mercado.
O impacto chega à educação superior. Conforme levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 14% dos universitários relataram trancamento de curso ou atraso em mensalidades devido a gastos com bets. Além disso, 34% dos entrevistados admitiram que o dinheiro drenado pelos jogos poderia ter sido investido em cursos ou na própria graduação. Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES, ressalta que esse comportamento cria uma barreira real para o acesso e a permanência no ensino superior, exigindo uma atuação conjunta que transcenda as salas de aula.
A entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) em março de 2026 marcou uma tentativa de resposta do Poder Público. A norma estabelece a responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado, proibindo o acesso de menores de 18 anos e exigindo mecanismos rigorosos de aferição de idade. O advogado Felipe Moreira destaca que a facilidade de contornar regras com um simples clique é o que a legislação pretende extinguir.
Contudo, a influência digital permanece como um desafio complexo. Influenciadores digitais, por vezes, contornam as barreiras críticas dos usuários ao promoverem apostas como recomendações pessoais, e não como publicidade. Esse fator, somado à exploração da imaturidade financeira, faz com que o caminho para a recuperação — muitas vezes mediado por irmandades como os Jogadores Anônimos — seja o único porto seguro para quem chegou ao limite do esgotamento, enfrentando dívidas que comprometem até mesmo o básico para a sobrevivência.
