Sem emitir avisos claros nos primeiros estágios, a retinopatia diabética afeta entre 24% e 39% das pessoas diagnosticadas com diabetes no Brasil. O número representa um em cada três pacientes, transformando a condição em uma das principais causas de cegueira evitável entre a população em idade produtiva. Contudo, intervenções precoces conseguem derrubar o risco de perda total da visão para menos de 5%.
O problema decorre do excesso prolongado de açúcar na corrente sanguínea, que danifica gradualmente os microvasos da retina — a estrutura no fundo do olho incumbida de captar a luz e transmitir os estímulos visuais ao cérebro. Por evoluir de maneira silenciosa, as alterações oculares costumam ser notadas quando o quadro já está avançado, o que atrasa a busca por atendimento médico.
Avanço progressivo e impacto social
“Estamos falando de uma doença que cega, mutila e tira muitas pessoas do mercado de trabalho”, adverte Maria Auxiliadora Frazão, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Segundo a médica, o agravo gera reflexos diretos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e nas contas públicas. Para ampliar o conhecimento sobre a patologia, a entidade promove a campanha 24 Dias pelo Diabetes, com início marcado para o próximo domingo (1º) e atividades até o fim de novembro.
A duração do convívio com o diabetes é o fator determinante no surgimento do problema. Após duas décadas do diagnóstico inicial, a prevalência da lesão na retina atinge 90% dos indivíduos com diabetes tipo 1 e chega a 60% entre os portadores do tipo 2.
Métodos de diagnóstico e diretrizes do Ministério da Saúde
O rastreamento eficiente depende diretamente do exame de fundo de olho, conhecido tecnicamente como fundoscopia. Previsto no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Retinopatia Diabética do Ministério da Saúde, o procedimento avalia o tecido retinal e seus vasos, frequentemente com o auxílio da dilatação da pupila, detectando anomalias antes mesmo que a acuidade visual seja afetada.
As normas de rastreamento do órgão federal variam segundo o perfil do paciente. Quem descobre o diabetes tipo 2 deve realizar a fundoscopia imediatamente no momento do diagnóstico. Já em adultos com o tipo 1, a investigação inicial precisa ocorrer cinco anos após a identificação da doença. Para crianças e adolescentes, o primeiro exame é indicado ao completar cinco anos do quadro ou ao surgirem os primeiros sinais da puberdade.
Pacientes sem lesões ou com formas leves passam por reavaliação anual, enquanto quadros moderados ou graves exigem acompanhamento em intervalos curtos. Gestantes com diabetes prévio necessitam de monitoramento a cada trimestre da gravidez e durante o primeiro ano pós-parto — exceção feita às mulheres com diabetes gestacional pura, que costumam dispensar essa triagem específica.
Prevenção diária e acesso ao tratamento
Além da assistência médica, o controle contínuo da glicose no sangue e da pressão arterial atua diretamente na prevenção. O CBO recomenda o consumo reforçado de fibras — presentes no feijão, arroz integral, aveia e lentilha —, a redução de sal, açúcares, embutidos e ultraprocessados, além de vetar o tabagismo e o consumo exagerado de álcool. Noites de sono adequadas, manutenção do peso e momentos de descanso completam as medidas protetivas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), o percurso assistencial começa na unidade básica de saúde (UBS) ou nas equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), que regulam o encaminhamento aos especialistas. Na rede privada, a consulta é agendada com oftalmologistas credenciados pelas operadoras, cujas coberturas para exames e procedimentos seguem o rol fixado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
