Nova York, Estados Unidos – O retorno do sarampo aos Estados Unidos, impulsionado por uma guinada política que prioriza o discurso antivacina, coloca o Brasil em alerta. Com mais de 4,4 mil casos confirmados e três mortes registradas em território americano este ano, a situação é classificada por especialistas como o pior surto em três décadas. O dado que causa maior espanto entre sanitaristas é que 98% das pessoas infectadas não estavam com o esquema vacinal completo.
Para Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o cenário norte-americano representa um retrocesso perigoso para todo o continente. O governo dos Estados Unidos tem chancelado publicamente teses contrárias à imunização, inclusive com indicações políticas para a pasta da Saúde que seguem essa mesma linha de pensamento. A apreensão é que tal exemplo, pautado pelo negacionismo, contamine a percepção pública global sobre a importância das vacinas de bloqueio.
Enquanto o mundo observa o descontrole nos EUA, o Brasil tenta manter o certificado de país livre da doença, status que foi perdido em 2019 e recuperado apenas após um esforço rigoroso de vigilância e campanhas em estados como São Paulo. Atualmente, o país contabiliza 61 casos, quase todos de origem importada. Manter o certificado exige uma cobertura vacinal acima de 95%, meta que o Brasil tem buscado alcançar com números crescentes: em 2024, as taxas preliminares atingiram 95% na primeira dose e 80% na segunda.
A instabilidade, contudo, é alimentada por decisões políticas tomadas em Washington. Em agosto, o governo americano reduziu a recomendação de imunizantes infantis de 17 para 11 e ordenou o fracionamento da vacina tríplice viral, alegando, sem base científica, uma ligação com o autismo. Para Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), essa medida é tecnicamente inviável, já que as doses individualizadas para sarampo, caxumba e rubéola deixaram de ser fabricadas há quase duas décadas.
O impacto dessa desinformação atravessa fronteiras. Mesmo sem adotar as práticas americanas, o Brasil já sente os efeitos colaterais da retórica estrangeira nas redes sociais. Em maternidades particulares, profissionais relatam resistência de pais em autorizar a vacina contra a hepatite B, após o governo Trump restringir a indicação do imunizante para bebês recém-nascidos. O risco é real: enquanto adultos têm 90% de chance de se recuperar do vírus B, em recém-nascidos, a infecção tem 90% de probabilidade de se tornar crônica, podendo evoluir para quadros graves de cirrose ou câncer hepático.
O custo para manter o sarampo longe do Brasil é elevado. Cada notificação exige isolamento, rastreamento de contatos e bloqueio vacinal em larga escala. Apenas em São Paulo, cerca de 4 milhões de doses extras foram aplicadas este ano. O grande desafio, alertam os especialistas, é combater a complacência gerada pelo próprio sucesso da vacinação, que faz com que a sociedade subestime a necessidade de proteção.
