Brasília (DF) – Um esquema de espionagem operado sob o comando de Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, mantinha abertas as portas de sistemas restritos do Ministério Público Federal (MPF), da Polícia Federal (PF) e até da Interpol. A revelação consta em um documento de 164 páginas produzido pela própria PF, datado de 27 de fevereiro, que detalha como Vorcaro utilizava recursos financeiros para contornar o sigilo de investigações em que era alvo.
O centro dessa engrenagem era uma célula denominada “A Turma”, uma milícia privada de vigilância e coerção que custava mensalmente R$ 1 milhão aos cofres do banqueiro. À frente da execução desses serviços estava Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”. Documentos enviados ao ministro do STF André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero, mostram que Mourão tinha a incumbência de realizar acessos recorrentes a procedimentos restritos do BC, das polícias Civil e Federal e do MPF, utilizando logins funcionais de terceiros para garantir o sigilo das intrusões.
A dinâmica de funcionamento era frenética. Em um exemplo citado pelos investigadores, ocorrido em 15 de fevereiro de 2024, Vorcaro solicitou informações sobre um inquérito específico à sua rede. Quarenta minutos depois, Mourão respondeu com um áudio de Marilson Roseno da Silva, um policial federal aposentado. Na gravação, Roseno assegurava que a “Tropa” já estava ciente e daria atenção prioritária ao pedido. O servidor, preso em 4 de março de 2024, tinha trânsito livre nos sistemas do MPF, uma falha sistêmica que a própria corporação identificou como tendo origem na delegacia de Juiz de Fora, em Minas Gerais.
A sede por informações era insaciável. Quando Mourão alertou que realizar buscas sobre a relação entre o Banco de Brasília (BRB) e o Master poderia chamar atenção, dado o alto volume de processos, o banqueiro foi taxativo: “Quero tudo. Atenção total”. A partir daí, o grupo passou a drenar dados, chegando a hachurar nomes em documentos obtidos para apagar qualquer rastro de sua identidade funcional.
O alcance desse monitoramento ultrapassou as fronteiras nacionais. A PF apontou que a estrutura de espionagem alcançou registros vinculados ao FBI e à Interpol. Prints de conversas trocadas por Mourão em outubro de 2025 exibiam logotipos da Interpol e menções a relatórios que estariam sendo aguardados do serviço de inteligência norte-americano. Embora a Interpol Brasil tenha esclarecido que o formato da interface não corresponde aos seus sistemas de busca padrão, a PF não descartou que o acesso tenha ocorrido via terminais de outros países que replicam dados da rede internacional.
O Banco Master acabou liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, após ser flagrado em uma grave crise de liquidez e violações de normas financeiras. A tentativa de venda da instituição ao BRB — negócio que teria custado R$ 8,8 bilhões em perdas ao banco público — é apenas um dos focos dos investigadores. Além da espionagem, a “Turma” de Vorcaro era preparada para o uso da força. O relatório da PF detalha planos de agressões físicas e coação, utilizando homens armados para silenciar opositores.
Atualmente, Daniel Vorcaro permanece sob custódia, por determinação do STF, com prisões decretadas em novembro de 2025 e março de 2026. Já Felipe Mourão, o “Sicário”, não chegou a responder pelos atos diante da Justiça; ele faleceu no cárcere, dias após ser detido, em um episódio de suicídio.
