A montadora Ford instituiu, em maio de 1926, a jornada de trabalho de 40 horas semanais em suas unidades fabris nos Estados Unidos, marcando um ponto de virada para o modelo industrial global. A decisão, que consolidou a escala de cinco dias de labuta por dois de descanso, ficou conhecida como fordismo e antecipou em 14 anos a legislação federal americana sobre o tema, formalizada apenas em 1940.
Impacto e motivações do modelo
No início do século 20, a média de trabalho nos Estados Unidos alcançava 60 horas semanais, distribuídas em seis dias. A mudança promovida por Henry Ford visava atrair talentos, elevar a produtividade por meio de funcionários mais descansados e fomentar o consumo, já que o tempo livre extra permitiria o lazer. O sucesso da medida foi notável, fazendo com que, em 1927, mais de 260 grandes empresas adotassem o formato.
A pressão dos sindicatos
Embora a Ford tenha liderado a adoção prática, o movimento trabalhista foi o verdadeiro motor da mudança. Desde o fim da Guerra Civil Americana, sindicatos lutavam pelo lema de oito horas para o trabalho, oito para o descanso e oito para o lazer. O historiador Antonio Luigi Negro, da Universidade Federal da Bahia, enfatiza que essas conquistas foram frutos de organização coletiva, destacando que o empresário Henry Ford era, na verdade, um opositor ferrenho da sindicalização.
Contexto histórico e econômico
O economista Robert M. Whaples, da Universidade Wake Forest, aponta que a escassez de mão de obra, causada pela redução da imigração europeia, também forçou os gestores a repensarem as jornadas longas. A fadiga excessiva dos operários passou a ser vista como um entrave para a produtividade a longo prazo. Hoje, o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos Estados Unidos registra uma média de 34,3 horas semanais no país, embora o setor de mineração ainda mantenha médias superiores a 45 horas.
Discussões atuais no Brasil
O debate sobre a redução da jornada atravessa fronteiras e chega ao cenário político brasileiro. O governo federal e lideranças da Câmara dos Deputados alinharam recentemente uma proposta para extinguir a escala 6×1 e limitar a jornada a 40 horas semanais, espelhando o padrão adotado pela Ford há 100 anos. A proposta de emenda à Constituição que trata do assunto tem votação prevista para o final de maio na Comissão Especial da Câmara.
