Lima, Peru – O cenário das eleições peruanas atingiu um ponto de inflexão matemático nesta terça-feira. Após mais de duas semanas de uma apuração arrastada, a candidata Keiko Fujimori alcançou uma margem de votos que seu adversário de esquerda, Roberto Sánchez, já não consegue mais reverter. Com 50,1% da preferência do eleitorado, Fujimori mantém uma dianteira de aproximadamente 43 mil votos. Como restam apenas 40 mil cédulas a serem processadas — um lote que deve ser concluído até a manhã desta quarta-feira, 24 —, a vantagem tornou-se inalcançável.
Embora os números apontem para uma vitória, a autoridade eleitoral do país ainda evita o anúncio oficial do vencedor. A expectativa é que o desfecho formal seja postergado para o mês seguinte. Essa espera frustra a candidata, que aproveitou a terça-feira para reclamar da lentidão administrativa, alegando que o compasso de espera prejudica o início do planejamento para a sucessão presidencial.
Keiko traz consigo um sobrenome que divide o país. Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, ela carrega o peso de um legado familiar marcado por 16 anos de prisão do pai, condenado por violações de direitos humanos durante seu período no poder, nos anos 90. Esse histórico, por si só, já antecipa o clima de polarização que deve permear sua gestão.
Do outro lado da disputa, o clima é de insatisfação. Roberto Sánchez não apenas se recusou a admitir a derrota, como tem levado à imprensa constantes alegações de irregularidades no sistema de contagem. Sua tentativa mais recente de virar o jogo passou pela exigência da anulação de 300 mil votos provenientes de zonas eleitorais no exterior. O júri eleitoral, porém, encerrou as esperanças desse movimento na noite de terça, ao classificar a maioria dos recursos apresentados por sua equipe como improcedentes.
Caso o veredito seja confirmado, o desafio que aguarda Fujimori é profundo. Ela assume um Estado que vive uma instabilidade crônica, com o histórico alarmante de oito presidentes em um intervalo inferior a uma década. O ciclo de instabilidade incluiu uma série de renúncias forçadas e destituições, culminando no encarceramento de quatro ex-chefes de governo.
Para tentar governar com um mínimo de estabilidade, a nova presidente terá o apoio da bancada de seu próprio partido, que se estabeleceu como a principal força legislativa. A legenda garantirá 22 das 60 cadeiras no Senado e 41 dos 130 assentos na Câmara dos Deputados. O grupo de Sánchez ocupará a segunda posição na representação parlamentar, contando com 14 senadores e 32 deputados. Com essa configuração, a habilidade de negociação no Congresso será o verdadeiro teste de fogo para o mandato que se desenha no horizonte.
