O universo da aviação brasileira perdeu nesta quinta-feira, 1º de agosto, uma de suas vozes mais respeitadas. Joselito Geraldo de Sousa, o Lito Sousa, faleceu aos 59 anos em decorrência de complicações da Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A condição, de caráter raro e degenerativo, interrompeu a trajetória de um profissional que dedicou décadas à manutenção aeronáutica e ao ensino.
Nascido no Rio Grande do Norte e criado em Santos, litoral paulista, Lito construiu uma base sólida como mecânico e piloto. Foi essa vivência técnica que o impulsionou a migrar para o ambiente digital, onde encontrou uma forma de traduzir a complexidade dos aviões para o público leigo. Com uma didática simples, ele explicava desde a engenharia por trás de grandes tragédias aéreas até o funcionamento dos rigorosos protocolos de segurança vigentes no setor.
O carisma do criador de conteúdo resultou em números expressivos: seu canal no YouTube alcançou mais de 4 milhões de inscritos, enquanto seu perfil no Instagram somava 4,7 milhões de seguidores. Mesmo nas fases mais avançadas da doença, quando já enfrentava limitações visíveis de mobilidade e visão, Lito mantinha a lucidez que o caracterizava em aparições públicas, comportamento que gerou uma mobilização nacional de fãs e amigos.
A batalha contra a patologia trouxe um desfecho trágico, apesar das tentativas desesperadas de tratamento. Em setembro passado, a Anvisa chegou a conceder autorização excepcional para a importação de um fármaco experimental, na tentativa de frear o avanço do quadro clínico, que até o momento não possui cura conhecida.
O anúncio da perda foi compartilhado por sua esposa, Mila Seidl, em um vídeo emocionante. Em meio a imagens que relembravam passagens da vida pessoal do piloto, ela traçou um paralelo entre o trabalho dele e o desfecho inesperado. “No canal, falamos de tantas chegas e partidas, de planos de voos que deram errado e precisaram ser reajustados. Mas nunca imaginei que precisaríamos falar da sua partida”, disse, antes de ressaltar o legado de segurança que ele deixa para o público.
Entendendo a condição
A Doença de Creutzfeldt-Jakob permanece como um desafio para a ciência médica. Com menos de 100 casos suspeitos relatados anualmente no Brasil, a enfermidade é marcada pelo acúmulo de proteínas chamadas príons no cérebro. Essas estruturas anormais desencadeiam a degeneração progressiva das células nervosas, resultando em uma queda rápida e, por vezes, irreversível das funções neurológicas. Sem um tratamento eficaz para interromper essa evolução, a comunidade científica segue investigando as origens da condição, que encerra precocemente a trajetória de quem tanto colaborou para a cultura aeronáutica nacional.
