Brasília (DF) – O esporte figura como política pública central nas plataformas dos dois candidatos que disputam o segundo turno da Presidência da República. Embora ambos estabeleçam conexões entre a prática esportiva e a educação, as estratégias apresentadas por Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revelam abismos conceituais, especialmente no que tange à infraestrutura e ao tratamento do esporte feminino.
No programa de Flávio Bolsonaro, o esporte é projetado como uma ferramenta voltada à disciplina, segurança e formação do caráter individual. O texto do candidato do PL enfatiza a necessidade de ocupar o tempo dos jovens para evitar a ociosidade, propondo o projeto Escola nas Férias para abrir instituições de ensino durante recessos, embora falte clareza sobre a execução prática dessa medida. O foco do candidato recai sobre o mérito e a resiliência, tratando a atividade física como um meio para tirar o jovem das ruas ou do uso excessivo de telas.
Do outro lado, a candidatura de Lula enxerga o esporte sob uma perspectiva de transformação social, inserindo-o na mesma categoria da cultura. O plano petista propõe o Plano Nacional do Esporte e trata o setor como um motor econômico capaz de gerar renda e inovação. Enquanto o adversário foca na disciplina, o programa de Lula defende a criação de uma Universidade do Esporte para fomentar pesquisas e profissionalizar a gestão esportiva no Brasil.
A divergência é nítida quando se observa o esporte feminino. Flávio Bolsonaro limita sua menção ao tema à proibição da participação de atletas transexuais. A omissão de menções ao Bolsa Atleta — programa que atingiu 11 mil beneficiários em 2026 — também marca a postura do candidato, que prefere apostar no aperfeiçoamento de bolsas de alto rendimento mediadas pela iniciativa privada. Em contraste, o projeto de Lula coloca o futebol feminino como protagonista, prometendo investimentos para a Copa do Mundo de 2027, que ocorrerá no Brasil, utilizando o evento como alavanca para o turismo e a economia em oito capitais.
A gestão de equipamentos públicos ilustra a diferença de modelos. Flávio Bolsonaro aposta fortemente em parcerias público-privadas para viabilizar times escolares e o uso de infraestrutura por clubes e universidades. Lula, por sua vez, privilegia a manutenção dos investimentos do Novo PAC e a gestão articulada com estados, municípios e organizações sociais. O candidato à reeleição defende a continuidade dos centros esportivos já iniciados, mantendo um posicionamento contrário a processos amplos de privatização na área esportiva, reservando essa lógica apenas para grandes obras de infraestrutura complexa ou do setor energético.
Enquanto um lado busca no esporte a eficiência privada e a moralidade na formação juvenil, o outro tenta consolidar a área como um pilar de desenvolvimento humano e econômico, com o Estado mantendo o papel de indutor estratégico.
