Rio de Janeiro (RJ) – O Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab) abre suas portas neste sábado (15) para o lançamento de “O Quinto dos Infernos”. O título provocativo batiza o quinto álbum de estúdio do Harmonia Enlouquece, grupo musical nascido dentro do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ). A apresentação celebra uma trajetória de resistência artística na saúde mental pública, unindo pacientes e profissionais de saúde em torno do som.
A engrenagem criativa por trás desse projeto tem nome e sobrenome: Hamilton de Jesus Assunção. Paciente da rede de saúde mental desde 1984 — quando iniciou o tratamento no Posto de Assistência Médica-PAM Venezuela antes de migrar para o CPRJ, onde ingressou em 1998 —, Hamilton encontrou na música um canal vital de expressão. Das 65 canções gravadas na história do grupo, 62 saíram de sua caneta. No novo disco, que reúne 13 faixas, 11 composições inéditas são assinadas por ele.
O projeto deu seus primeiros passos no Dia Mundial da Saúde, em 7 de abril de 2001, quando o psicólogo Sidney Dantas convidou Hamilton para uma incipiente oficina de música. O que começou de maneira informal consolidou-se como referência nacional de psiquiatria humanizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a banda conta com 13 integrantes ativos — de um total de mais de 75 pessoas que já passaram pelas fileiras do projeto —, sendo nove pacientes em tratamento e os demais colaboradores. Entre eles está o diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão, que assume o violão básico e reforça a relevância do compositor principal: sem as letras de Hamilton, o grupo simplesmente não tem o que cantar.
Expansão e memória
O trabalho do Harmonia Enlouquece, recentemente agraciado com o Prêmio Asas (Aldir Blanc-RJ), integra um ecossistema terapêutico maior gerido pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ). Desde 2016, o Ponto de Cultura do CPRJ promove encontros mensais aos sábados, integrando pacientes do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub), do Instituto Municipal Philippe Pinel, de Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) e internos do hospital-dia. Há planos, inclusive, de abrir a unidade para visitações no fim da tarde e transformar a rádio interna do pátio em uma plataforma online de podcasts assim que a aparelhagem for concluída.
Para quem comparecer ao MuhCab, a programação vai além da música ao vivo. O público poderá conferir uma exposição documental que reconstrói a linha do tempo do CPRJ de 2001 até 2026. Também haverá a exibição do média-metragem “Harmonia Enlouquece – Um mergulho musical pela saúde mental”, dirigido por Flávia Lima, que retrata os 25 anos de estrada que a banda completa em 2026, além de debates sobre arte e inclusão.
