Brasília (DF) – O temor de um constrangimento em Hollywood acendeu o alerta na articulação financeira de Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em mensagens interceptadas pela Polícia Federal, o senador Flávio Bolsonaro demonstrou forte apreensão com atrasos nos repasses para a produção, mencionando expressamente o risco de dar um “calote” em astros do cinema mundial como Jim Caviezel e Cyrus.
As conversas, que constam em relatórios sigilosos obtidos pelos investigadores, expõem as engrenagens de uma operação milionária. O parlamentar teria solicitado R$ 131 milhões ao empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para viabilizar o longa-metragem. Deste total, cerca de R$ 60 milhões teriam sido efetivamente transferidos, sob a mediação do publicitário Thiago Miranda, encarregado de cobrar as parcelas pendentes.
Encontros e mensagens na mira da investigação
A aproximação direta entre o senador e o banqueiro começou a se desenhar em agosto de 2025. Registros sugerem uma reunião presencial no dia 20 daquele mês, quando Vorcaro propôs uma data e Flávio respondeu positivamente, ilustrando a resposta com uma figurinha do ex-presidente norte-americano Donald Trump. A PF aponta que outros encontros ocorreram na sequência, incluindo um convite formal para um jantar com os produtores do filme em novembro.
A tensão financeira escalou em setembro do mesmo ano. Em mensagem de áudio enviada a Vorcaro, Flávio justificou a cobrança explicando que o projeto atravessava um momento crucial e que a equipe técnica estava nervosa com os atrasos. Pouco antes de ser deflagrada a Operação Compliance Zero, em meados de novembro, o senador ainda tentou um telefonema e enviou uma mensagem reafirmando sua lealdade ao banqueiro, pedindo uma solução para os pagamentos.
O caminho dos dólares no exterior
O destino final do dinheiro também se tornou alvo de escrutínio. O setor de inteligência financeira identificou sete remessas sequenciais da empresa Entre Investimentos para o Havengate Development Fund LP, sediado nos Estados Unidos, somando US$ 12,33 milhões. A movimentação chamou a atenção porque o fundo norte-americano estava inativo há quase quatro anos, vindo a registrar atividade somente ao receber o primeiro aporte de US$ 2 milhões em fevereiro de 2025.
O fundo em questão é gerido por Paulo Calixto, advogado apontado como aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Os investigadores buscam esclarecer se parte desses valores remetidos ao exterior foi utilizada para custear as despesas de permanência do próprio Eduardo nos Estados Unidos. Uma captura de tela enviada pelo publicitário Thiago Miranda a Vorcaro mostra Eduardo orientando sobre a conveniência de manter os recursos diretamente em solo americano para evitar o lento processo de envio fracionado a partir do Brasil.
Disputa por documentos
O rastreamento completo dos fluxos financeiros esbarra em resistências jurídicas. A Polícia Federal solicitou os registros contábeis e fiscais da Go Up Entertainment LLC, produtora associada ao filme, mas o sócio majoritário da empresa, Michael Davis, alegou que o envio de documentação guardada nos Estados Unidos deve seguir rigorosamente os tratados de cooperação internacional, recusando o repasse direto.
Tanto Flávio quanto Eduardo Bolsonaro sustentam que não houve qualquer ilegalidade na captação de recursos para a produção audiovisual. O caso foi apensado ao inquérito principal que apura as atividades do Banco Master.
